
quarta-feira, 30 de abril de 2008
segunda-feira, 28 de abril de 2008
SER MÃE

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração!
Ser mãe é ser um anjo que se libra
Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Coisas de mãe

Se os filhos estão bem alimentados,
Poema para mamãe

Mãe! hoje eu volto a te ver na antiga sala
Mães

Mães
Mãe de um marmanjo, mãe de um anjo.
Mãe de um ladrão, mãe de um anão.
Mãe de um demente, mãe de um doente.
Mãe de um detento, mãe de um rebento.
Mãe de favela, mãe de novela.
Mãe que cai, mãe que se vai.
Mãe de um artista, simplista ou ativista.
Mãe de um sonho, medonho ou risonho.
Mãe de esquina, mãe tão menina.
Mãe que só padece, mãe que só se oferece.
Mãe que ri, chora ... e se esquece.
Mãe que é xingada, mãe que é “lembrada”... e é amada.
Mãe que cria, educa e é... deixada.
Mãe que não cai, mãe que é pai.
Mãe que fala, mãe que luta.
Mãe que se cala, mãe que só escuta.
Mãe que se vende, mãe que se rende.
Mãe que é enganada, mãe que é “forçada”.
Mãe que é no “berro”, mãe que é de ferro.
Mãe que é expulsa, mãe que é avulsa.
Mãe que nem pensa, que gera... dispensa.
Mãe que hoje chora,
mas não demora em ver que há uma formosa Senhora
que vem fazendo a hora.
Mãe, mesmo aflita és bendita.
Mãe Patrícia ou mãe Dita,
mãe Maria ou Madalena,
mãe mais alta ou mãe pequena:
Que venha o fruto de seu ventre,
a crescer junto com a gente,
e aprender com quem é decente.
Mesmo que não seja diferentedos frutos de atualmente,
mas que aprenda e ensine um tanto,
enquanto fico em meu cantor e vivendo um velho canto:
viver é somar,
viver é enfrentar.
No meio de alaridos,
viver é calar.
E a lembrar:
A Vida é pra frente.
A Vida é em frente.
A Vida é:
Enfrente.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
POMBO CORREIO

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Pombos-correio.
O pombo-correio é uma variedade domesticada do pombo-comum ou pombo-das-rochas (Columba livia), foi escolhido porque todo pombo retorna geralmente a seu próprio ninho e a sua próprio mãe, era relativamente fácil produzir seletivamente os pássaros que encontravam repetidamente o caminho de volta em longas distâncias.
Os pombos-correios foram usados para carregar mensagens escritas em papel claro fino (tal como o papel de cigarro) em um tubo pequeno unido a um pé; por isso o nome de pombo-correio.
Atualmente os pombos são utilizados para fins desportivos(columbódromos e campeonatos), concursos e exposições
quarta-feira, 23 de abril de 2008
POESIA

ELIAS JOSÉ
A poesia
tem tudo a ver
com tua dor e alegrias,
com as cores, as formas, os cheiros,
os sabores e a música
do mundo.
A poesia
tem tudo a ver
com o sorriso da criança,
o diálogo dos namorados,
as lágrimas diante da morte,
os olhos pedindo pão.
A poesia
tem tudo a ver
com a plumagem, o vôo e o canto,
a veloz acrobacia dos peixes,
as cores todas do arco-íris,
o ritmo dos rios e cachoeiras,
o brilho da lua, do sol e das estrelas,
a explosão em verde, em flores e frutos.
A poesia
- é só abrir os olhos e ver-
tem tudo a ver
com tudo.
POESIA

CELINA FERREIRA
Acordo leve e contente,
entre cores e alegria.
Penso no mar, nas montanhas,
nos rios, na maresia,
nos peixinhos, nos corais,
no sol que me traz o dia.
Em tudo sinto a grandeza,
em tudo vivo a poesia.
Abro os olhos, que beleza
que Deus agora me envia.
Sou dona dos horizontes,
dos verdes prados e montes,
da terna e doce harmonia.
Dos frutos que vêm da terra,
dos tesouros que ela encerra,
das riquezas que ela cria.
Sinto a paz dentro de mim
e nada perturbaria
a minha grande esperança
que um dia cada criança
viva também a poesia
que recolho do universo
e concentro em cada verso
que distribuo: Bom dia!
terça-feira, 22 de abril de 2008
Para refletir

POEMA

ஃﻶჱﻶﻉஃ Caminhos Cruzados
Quando um coração que está cansado de sofrer
Encontra um coração também cansado de sofrer
É tempo de se pensar
Que o amor pode de repente chegar
Quando existe alguém que tem saudade de outro alguém
E esse outro alguém não entender
Deixe esse novo amor chegar
Mesmo que depois seja imprescindível chorar
Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar
Nas coisas do amor que ninguém pode explicar
Vem nós dois vamos tentar
Só um novo amor pode a saudade apagar
Tom Jobim
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Poema
domingo, 20 de abril de 2008
Sugestão de leitura
terça-feira, 15 de abril de 2008
MONTEIRO LOBATO

A obra de Monteiro Lobato
Um dos mais importantes autores da nossa literatura, Monteiro Lobato soube, como ninguém, captar as aspirações e sentimentos dos brasileiros, legando, no conjunto da sua obra, um expressivo retrato do país e de sua gente.
Pensamento dos mais fecundos na primeira metade do século XX, foi um escritor-cidadão de personalidade inquieta e múltiplos interesses. Sua vasta cultura transparece nos livros que trazem uma mistura equilibrada de erudição e coloquialismo, traduzida em uma linguagem rica e inovadora. Abordando temas de cunho universal dentro de uma perspectiva brasileira, Lobato incorpora o frescor e o colorido das tradições locais. Libertária na forma e no conteúdo, a obra lobatiana, que seduziu gerações sucessivas de leitores, permanece atual, dialogando com temas do terceiro milênio.
Monteiro Lobato é também um clássico do faz-de-conta, tão grande quanto Esopo, La Fontaine e Andersen. Criador da nossa literatura infanto-juvenil, escreveu livros divertidos e ao mesmo tempo repletos de informação. Com eles se aprende brincando. Trazendo figuras da mitologia e das fábulas clássicas para interagir com a turma do Sítio do Picapau Amarelo, suas histórias instigam a curiosidade das crianças, despertando nelas o gosto pela leitura. No seu mundo encantado desaparecem as fronteiras entre ficção e realidade e, graças ao pó de pirlimpimpim, um ingrediente mágico catalisador da fantasia, tudo é possível.
Por seu caráter formador, as obras de Monteiro Lobato não devem faltar em nenhuma biblioteca. Indispensáveis, elas contribuem para ampliar nossa imaginação e a consciência da riqueza e diversidade cultural do Brasil.
Marcia Camargos e Vladimir Sacchetta
segunda-feira, 14 de abril de 2008
MONTEIRO LOBATO

MONTEIRO LOBATO
"Um país se faz com homens e livros"(Monteiro Lobato)
José Bento Monteiro Lobato nasceu em 18 de abril de 1882, em Taubaté, no Vale do Paraíba. Estreou no mundo das Letras com pequenos contos para os jornais estudantis dos colégios Kennedy e Paulista.
No curso de Direito da Faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo, dividiu-se entre suas principais paixões: escrever e desenhar. Colaborou em publicações dos alunos, vencendo um concurso literário, promovido em 1904 pelo Centro Acadêmico XI de Agosto.
Morou na república do Minarete, liderou o grupo de colegas que formou o Cenáculo e mandou artigos para um jornalzinho de Pindamonhangaba, que tinha como título o mesmo nome daquela moradia de estudantes.
Nessa fase de sua formação, Lobato realizou as leituras básicas e entrou em contato com a obra do filósofo alemão Nietzsche, cujo pensamento o guiaria vida afora.
Viveu um tempo como fazendeiro, foi editor de sucesso, mas foi como escritor infantil que Lobato despertou para o mundo em 1917.
Escreveu, nesse período, sua primeira história infantil, "A menina do Narizinho Arrebitado". Com capa e desenhos de Voltolino, famoso ilustrador da época, o livrinho, lançado no natal de 1920, fez o maior sucesso. Dali nasceram outros episódios, tendo sempre como personagens Dona Benta, Pedrinho, Narizinho, Tia Anastácia e, é claro, Emília, a boneca mais esperta do planeta.
Insatisfeito com as traduções de livros europeus para crianças, ele criou aventuras com figuras bem brasileiras, recuperando costumes da roça e lendas do folclore nacional. E fez mais: misturou todos eles com elementos da literatura universal, da mitologia grega, dos quadrinhos e do cinema.
No Sítio do Picapau Amarelo, Peter Pan brinca com o Gato Félix, enquanto o Saci ensina truques a Chapeuzinho Vermelho no país das maravilhas de Alice. Mas Monteiro Lobato também fez questão de transmitir conhecimento e idéias em livros que falam de história, geografia e matemática, tornando-se pioneiro na literatura paradidática - aquela em que se aprende brincando.
Trabalhando a todo vapor, Lobato teve que enfrentar uma série de obstáculos. Primeiro, foi a Revolução dos Tenentes que, em julho de 1924, paralisou as atividades da sua empresa durante dois meses, causando grande prejuízo. Seguiu-se uma inesperada seca, obrigando a um corte no fornecimento de energia. O maquinário gráfico só podia funcionar dois dias por semana.
E, numa brusca mudança na política econômica, Arthur Bernardes desvalorizou a moeda e suspendeu o redesconto de títulos pelo Banco do Brasil. A conseqüência foi um enorme rombo financeiro e muitas dívidas. Só restou uma alternativa a Lobato: pedir a autofalência, apresentada em julho de 1925. O que não significou o fim de seu ambicioso projeto editorial, pois ele já se preparava para criar outra empresa.
Assim surgiu a Companhia Editora Nacional. Sua produção incluía livros de todos os gêneros, entre eles traduções de Hans Staden e Jean de Léry, viajantes europeus que andaram pelo Brasil no século XVI. Lobato recobrou o antigo prestígio, reimprimindo na empresa sua marca inconfundível: livros bem impressos, com projetos gráficos apurados e enorme sucesso de público.
Sofreu perseguições políticas na época da ditadura, porém conseguiu exílio político em Buenos Aires. Lobato estava em liberdade, mas enfrentava uma das fases mais difíceis da sua vida. Perdeu Edgar, o filho mais velho, e presenciou o processo de liquidação das companhias que fundou e, o que foi pior, sofreu com a censura e atmosfera asfixiante da ditadura de Getúlio Vargas.
Partiu para a Argentina, após se associar à Brasiliense e editar suas Obras Completas, com mais de dez mil páginas, em trinta volumes das séries adulta e infantil. Regressou de Buenos Aires em maio de 1947 para encontrar o país às voltas com situações conflituosas do governo Dutra. Indignado, escreveu "Zé Brasil".
No livro, o velho Jeca Tatu, preguiçoso incorrigível, que Lobato depois descobriu vítima da miséria, vira um trabalhador rural sem terra. Se antes o caipira lobatiano lutava contra doenças endêmicas, agora tinha no latifúndio e na distribuição injusta da propriedade rural seu pior inimigo. Os personagens prosseguiam na luta, mas seu criador já estava cansado de tantas batalhas. Monteiro Lobato sofreu dois espasmos cerebrais e, no dia 4 de julho de 1948, virou "gás inteligente" - o modo como costumava definir a morte.
Monteiro Lobato foi-se aos 66 anos de idade, deixando uma imensa obra para crianças, jovens e adultos e o exemplo de quem passou a existência sob a marca do inconformismo.
LIVROS

SOBRE OS LIVROS
"Na deixa da virada do milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - L.I.V.R.O. Ele representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado.
É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!
Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e são capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém automaticamente em sua seqüência correta.
Através do uso intensivo do recurso TPA - Tecnologia do Papel Opaco - permite que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade! Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para se fazer L.I.V.R.O.s com mais informações, basta se usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, fato que atrai críticas dos adeptos da portabilidade do sistema.
Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro. Lembramos que quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.
Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima pagina. O L.I.V.R.O. pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, basta abri-lo. Ele nunca apresenta "ERRO GERAL DE PROTEÇÃO", nem precisa ser reiniciado, embora se torne inútil caso caia no mar, por exemplo.
O comando "broxe" permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda vem com o equipamento "índice" instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.
Um acessório opcional, o marca-páginas, permite que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total e permite que funcionem em qualquer modelo ou marca de L.I.V.R.O. , sem necessidade de configuração. Além disso, qualquer L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com o número de páginas.
Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., através de anotações em suas margens. Para tanto, deve-se utilizar de um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada - L.A.P.I.S..
Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. é apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro. Milhares de programadores desse sistema disponibilizaram vários títulos e upgrades para a utilização na plataforma L.I.V.R.O."
Autor: Millôr Fernandes
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Obras de Monteiro Lobato

O livro-mãe, a locomotiva do comboio, o puxa-fila. A saga do Picapau Amarelo começa. Aparecem Narizinho, Pedrinho, Emília, o Visconde, Rabicó, Quindim, Nastácia, o Burro Falante... e o milagre do estilo de Monteiro Lobato vai tramando uma série infinita de cenas e aventuras, em que a realidade e a fantasia, tratadas pela sua poderosa imaginação, misturam-se de maneira inextrincável - tal qual se dá normalmente na cabeça das crianças. O encanto que as crianças encontram nestas histórias vem sobretudo disso: são como se elas próprias as estivessem compondo em sua imaginativa, e na língua que todos falamos nessa terra - não em nenhuma língua artificial e artificiosa, mais produto da "literatura" do que da espontaneidade natural (1931).
2 – Viagem ao céu e O Saci
Pedrinho consegue obter uma boa dose do pó de pirlimpimpim, o pó mágico que transporta as criaturas a qualquer ponto do Espaço e a qualquer momento do Tempo. Distribuindo pitadas a Narizinho, Emília, Visconde, Nastácia e o Burro Falante, empreende a viagem ao céu astronômico. Vão parar na Lua, onde tia Nastácia vira cozinheira de São Jorge, enquanto os outros visitam Marte, Saturno e a Via Láctea, onde encontram o Anjinho de Asa Quebrada. Enquanto brincam no espaço sideral, vão aprendendo noções de astronomia. Só voltam de lá quando dona Benta os chama com um bom berro: "Já pra baixo, cambada!". Na segunda parte, "O Saci", desenvolve-se a estranha aventura vivida por Pedrinho que conseguiu pegar um saci com a peneira e conservá-lo preso numa garrafa. O diabinho de uma perna só proporciona ao garoto ensejo de conhecer a vida noturna e fantástica das matas - com visões da Mula Sem Cabeça, da Caapora, do Lobisomem, do Boitatá, e das principais criações mitológicas do nosso folclore (1932).
3 – Caçadas de Pedrinho e Hans Staden
Pedrinho organiza uma caçada de onça e sai vitorioso, como também sai vitorioso do ataque das onças e outros animais ao sítio de dona Benta. Depois encontra um rinoceronte, fugido de um circo do Rio de Janeiro, que se refugiara naquelas matas - um animal pacatíssimo do qual Emília tomou conta, depois de batizá-lo de Quindim. Completa o volume a narrativa feita por dona Benta das célebres aventuras de Hans Staden. Esse aventureiro alemão veio ao Brasil em 1559 e esteve nove meses prisioneiro dos tupinambás, assistindo a cenas de antropofagia e à espera de ser devorado de um momento para outro. Mas se salvou e voltou para a Alemanha. Lá publicou o seu livro: o primeiro que aparece com cenário brasileiro e um dos mais pungentes e vivos de todas as literaturas (1933).
4 – História do mundo para as crianças
Este livro de Monteiro Lobato teve uma aceitação excepcional. Nele o autor trata da evolução humana, e da história da humanidade no planeta, na organização clássica de todas as "histórias universais", mas escrita de modo extremamente atrativo, como um verdadeiro romance posto em linguagem infantil. As crianças lêem avidamente esse livro, como lêem as histórias da carochinha (1933).
5 – Memórias da Emília e Peter Pan
Emília, a terrível Emília, resolve contar suas memórias, ditando-as ao Visconde de Sabugosa. Das memórias de Emília sai o episódio, tão vivo e interessante, da visita das crianças inglesas ao sítio de dona Benta, trazidas pelo velho almirante Brown. Vieram para conhecer o Anjinho de Asa Quebrada, que Emília descobriu na Via Láctea, durante a Viagem ao Céu. Emília conta tudo - o que houve e o que não houve; e vai dando as suas ideiasinhas sobre tudo - ou a sua filosofia, que muitas vezes faz dona Benta olhar para tia Nastácia, e murmurar: "Já viu, que diabinha?". Na segunda parte, "Peter Pan", dona Benta recebe o famoso livro de John Barrie e o lê à sua moda para as crianças. Durante a leitura, às vezes interrompida por cenas provocadas pelos meninos e sobretudo pela Emília, ocorre o caso do desaparecimento da sombra da tia Nastácia. Quem furtou a sombra da pobre negra? O Visconde é posto a investigar, e como é um excelente Sherlock, descobre tudo: artes da Emília... (1936).
6 – Emília no país da gramática e Aritmética da Emília
Temos aqui uma das obras-primas de Monteiro Lobato e o mais original de quantos livros se escreveram até hoje. Lobato representa a língua como uma cidade, a cidade da Gramática, e leva para lá o pessoalzinho do sítio, montado no rinoceronte. E é esse paciente paquiderme o gramático que tudo mostra e explica. Há a entrevista de Emília com o venerando Verbo Ser, que é pura criação. E a reforma ortográfica, que Emília opera à força, com o rinoceronte ali a seu lado para sustentar suas decisões, constitui um episódio que não só encanta as crianças pela fabulação como ensina as principais regras da ortografia. Na Aritmética da Emília, Monteiro Lobato usa do mesmo recurso e consegue, a partir de matéria tão árida como a aritmética, transformar o velho Trajano numa linda brincadeira no pomar. O quadro-negro em que faziam contas a giz era o couro do Quindim... (1934).
7 – Geografia de Dona Benta
Em vez de estudar geografia nos livros, como fazem todas as crianças, o pessoalzinho do sítio embarca no navio "O terror dos Mares" e sai pelo mundo afora, a "viver" geografia. E a geografia, aquele estudo penoso e às vezes tão sem graça, torna-se uma aventura linda, com paradas em inúmeros portos e descidas em terra para ver as coisas mais notáveis de todos os países. É brincadeira das mais divertidas e preciosíssimo curso de geografia (1935)
8 – Serões de Dona Benta e História das invenções
Certo dia, dona Benta resolve ensinar física aos meninos, e em vários serões faz um verdadeiro curso da matéria, melhor que quando feito, penosamente, nos colégios. A física perde a sua secura. Os diálogos, os incidentes, as constantes perguntas dos meninos e as ocasionais maluquices da Emília, amenizam o processo do aprendizado (1937).
9 – D. Quixote das crianças
As famosas aventuras de D. Quixote de la Mancha e de seu gordo escudeiro, Sancho, são aqui contadas por dona Benta, naquele modo de contar histórias que é só dela. Emília entusiasma-se com o herói e em certo momento resolve imitá-lo - e armada dum cabo de vassoura, feito lança, investe contra as galinhas do quintal. E tantas faz, que tia Nastácia teve que agarrá-la e prendê-la numa gaiola, como aconteceu com o herói da Mancha na sua loucura... (1936).
10 – O poço do Visconde
Um livro interessante em que a geologia, sobretudo a geologia especializada do petróleo, é exposta ao vivo e com profundo conhecimento da matéria. O Visconde vira geólogo, faz conferências, ensina a teoria e depois passa à prática, com a abertura de poços de petróleo nas terras do sítio de dona Benta. E tão bem são conduzidos os estudos geológicos e geofísicos, que a Companhia Donabentense de Petróleo, fundada pelo pessoal do sítio, consegue abrir o primeiro poço de petróleo do Brasil: o Caraminguá nº 1. É o livro pelo qual Monteiro Lobato leva sua campanha pelo petróleo aos leitores infanto-juvenis, como havia feito com os adultos em O Escândalo do Petróleo (1937).
11 – Histórias de tia Nastácia
São as histórias mais populares do nosso folclore, contadas por tia Nastácia e comentadas pelos meninos. Nesses comentários, no fim de cada história, Pedrinho, Narizinho e Emília revelam-se bem dotados de senso crítico, e "julgam" as histórias da negra com muito critério e segurança. É um livro que "ensina" a arte da crítica - lição que pela primeira vez um escritor procura transmitir às crianças (1937).
12 – O Picapau Amarelo e A reforma da natureza
Dona Benta adquire todas as terras em redor do sítio para atender a uma solicitação prodigiosa: os personagens das fábulas resolveram morar lá. Branca de Neve com os sete anões, D. Quixote e Sancho Pança, Peter Pan e os meninos perdidos do País do Nunca, a Gata Borralheira, todas as princesas e príncipes encantados das histórias da carochinha, os heróis da mitologia grega, tudo, tudo que é criação da Fábula muda-se com armas e bagagens para o Picapau Amarelo, levando os castelos, os palácios, as casinhas mimosas como a de Chapeuzinho Vermelho e até os mares. Peter Pan transporta pra lá até o Mar dos Piratas. Acontecem maravilhas; mas no casamento de Branca de Neve com o príncipe Codadad, o maravilhoso sítio é assaltado pelos monstros da Fábula - e no tumulto tia Nastácia desaparece...(1939).
13 – O Minotauro
Neste livro desenrolam-se as aventuras de Pedrinho, do Visconde e da Emília na Grécia Heróica, para onde foram em procura de tia Nastácia. Acontecem mil coisas, e afinal descobrem o paradeiro da negra, graças à ajuda do Oráculo de Delfos. Estava presa no Labirinto de Creta, nas unhas do Minotauro! Mas tia Nastácia já havia domesticado o monstro, à força de bolinhos e quitutes; deixara-o tão gordo que os meninos puderam entrar no Labirinto e salvá-la sem que ele, espapaçado no trono, pensasse em reagir...(1937).
14 – A chave do tamanho
Talvez o mais original dos livros de Monteiro Lobato. Emília, furiosa com a Segunda Guerra Mundial, resolve acabar com ela. Como? Indo à Casa das Chaves, lá nos confins do mundo, e "virando" a Chave da Guerra. Mas comete um erro e em vez da Chave da Guerra vira a Chave do Tamanho, isto é, a chave que regula o tamanho das criaturas humanas. Em conseqüência, subitamente, todas as criaturas humanas do mundo inteiro "perdem o tamanho", ficam de dois, três centímetros de estatura - e Lobato conta o que se seguiu. Trata-se de um livro rigorosamente lógico, e que transmite às crianças o senso da relatividade de todas as coisas (1942).
15 – Fábulas
Neste livro Monteiro Lobato reescreve as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, mas de modo comentado. A novidade do livro está justamente nestes comentários, em que as fábulas são criticadas com a maior independência - e Emília chega a ponto de "querer linchar" uma delas, cuja lição de moral pareceu-lhe muito cruel. Um livro encantador, em que o gênio dos velhos fabulistas é singularmente realçado pelos diálogos entre os meninos, que a inventiva de Monteiro Lobato vai criando com a maior agudeza e frescura (1922).
16/17 – Os doze trabalhos de Hércules
Pela primeira vez em todas as literaturas, os famosíssimos trabalhos de Hércules - o mais belo romance fantástico da Antigüidade Clássica - são narrados à maneira moderna - e vivificados pela colaboração de Pedrinho, Emília e o Visconde de Sabugosa. Esses três heroisinhos modernos vão para a Grécia, a fim de acompanhar as façanhas de Hércules - e o fazem tomando parte nelas e muitas vezes salvando o grande herói. Das aventuras ressalta a lição moral: o valor e a superioridade da inteligência expontânea, viva como azougue e sempre vitoriosa (1944).
quinta-feira, 10 de abril de 2008
MONTEIRO LOBATO
Primeiras letras: Lobato estudante
José Bento Monteiro Lobato estreou no mundo das letras com pequenos contos para os jornais estudantis dos colégios Kennedy e Paulista, que freqüentou em Taubaté, cidade do Vale do Paraíba onde nasceu, em 18 de abril de 1882.No curso de Direito da Faculdade do Largo São Francisco, em São Paulo, dividiu-se entre suas principais paixões: escrever e desenhar. Colaborou em publicações dos alunos, vencendo um concurso literário promovido em 1904 pelo Centro Acadêmico XI de Agosto. Morou na república estudantil do Minarete, liderou o grupo de colegas que formou o Cenáculo e mandou artigos para um jornalzinho de Pindamonhangaba, que tinha como título o mesmo nome daquela moradia de estudantes. Nessa fase de sua formação, Lobato realizou as leituras básicas e entrou em contato com a obra do filósofo alemão Nietzsche, cujo pensamento o guiaria vida afora.
1905 - 1910
Lobato volta ao Vale do Paraíba
Diploma nas mãos, Lobato voltou a Taubaté. E de lá prosseguiu enviando artigos para um jornal de Caçapava, O Combatente. Nomeado promotor público, mudou-se para Areias, casou-se com Purezinha e começou a traduzir artigos do Weekly Times para O Estado de S. Paulo. Fez ilustrações e caricaturas para a revista carioca Fon-Fon! e colaborou no jornal Gazeta de Notícias, também do Rio de Janeiro, assim como na Tribuna de Santos.
1911 - 1917
Lobato fazendeiro e jornalista
A morte súbita do avô determinou uma reviravolta na vida de Monteiro Lobato, que herdou a Fazenda do Buquira, para a qual se transferiu com a família. Localizada na Serra da Mantiqueira, já estava com as terras esgotadas pela lavoura do café. Assim mesmo, ele tentou transformá-la num negócio rendoso, investindo em projetos agrícolas audaciosos.Mas não se afastou da literatura. Observando com interesse o mundo da roça, logo escreveu artigo, para O Estado de S. Paulo, denunciando as queimadas no Vale do Paraíba. Intitulado “Uma velha praga”, teve grande repercussão quando saiu, em novembro de 1914. Um mês depois, redigiu Urupês, no mesmo jornal, criando o Jeca Tatu, seu personagem-símbolo. Preguiçoso e adepto da "lei do menor esforço", Jeca era completamente diferente dos caipiras e indígenas idealizados pelos romancistas como, por exemplo, José de Alencar. Esses dois artigos seriam reproduzidos em diversos jornais, gerando polêmica de norte a sul do país. Não demorou muito e Lobato, cansado da monotonia do campo, acabou vendendo a fazenda e instalando-se na capital paulista.
1918 - 1925
Lobato editor e autor infantil
Com o dinheiro da venda da fazenda, Lobato virou definitivamente um escritor-jornalista. Colaborou, nesse período, em publicações como Vida Moderna, O Queixoso, Parafuso, A Cigarra, O Pirralho e continuou em O Estado de S. Paulo. Mas foi a linha nacionalista da Revista do Brasil, lançada em janeiro de 1916, que o empolgou. Não teve dúvida: comprou-a em junho de 1918 com o que recebera pela Buquira. E deu vez e voz para novos talentos, que apareciam em suas páginas ao lado de gente famosa.
O editor
A revista prosperou e ele formou uma empresa editorial que continuou aberta aos novatos. Lançou, inclusive, obras de artistas modernistas, como O homem e a morte, de Menotti del Picchia, e Os Condenados, de Oswald de Andrade. Os dois com capa de Anita Malfatti, que seria pivô de uma séria polêmica entre Lobato e o grupo da Semana de 22: Lobato criticou a exposição da pintora no artigo “Paranóia ou mistificação?”, de 1917. “Livro é sobremesa: tem que ser posto debaixo do nariz do freguês", dizia Lobato, que, para provocar a gulodice do leitor, tratava o livro como um produto de consumo como outro qualquer, cuidando de sua qualidade gráfica e adotando capas coloridas e atraentes. O empreendimento cresceu e foi seguidamente reestruturado para acompanhar a velocidade dos negócios, impulsionada ainda mais por uma agressiva política de distribuição que contava com vendedores autônomos e com vasta rede de distribuidores espalhados pelo país. Novidade e tanto para a época, e que resultou em altas tiragens. Lobato acabaria entregando a direção da Revista do Brasil a Paulo Prado e Sérgio Milliet, para dedicar-se à editora em tempo integral. E, para poder atender às crescentes demandas, importou mais máquinas dos Estados Unidos e da Europa, que iriam incrementar seu parque gráfico. Mergulhado em livros e mais livros, Lobato não conseguia parar.
O autor infantil
Escreveu, nesse período, sua primeira história infantil, A menina do narizinho arrebitado. Com capa e desenhos de Voltolino, famoso ilustrador da época, o livrinho, lançado no Natal de 1920, fez o maior sucesso. Dali nasceram outros episódios, tendo sempre como personagens Dona Benta, Pedrinho, Narizinho, Tia Nastácia e, é claro, Emília, a boneca mais esperta do planeta. Insatisfeito com as traduções de livros europeus para crianças, ele criou aventuras com figuras bem brasileiras, recuperando costumes da roça e lendas do folclore nacional. E fez mais: misturou todos eles com elementos da literatura universal, da mitologia grega, dos quadrinhos e do cinema. No Sítio do Picapau Amarelo, Peter Pan brinca com o Gato Félix, enquanto o saci ensina truques a Chapeuzinho Vermelho no país das maravilhas de Alice. Mas Monteiro Lobato também fez questão de transmitir conhecimento e idéias em livros que falam de história, geografia e matemática, tornando-se pioneiro na literatura paradidática - aquela em que se aprende brincando.
Crise e falência
Trabalhando a todo vapor, Lobato teve que enfrentar uma série de obstáculos. Primeiro, foi a Revolução dos Tenentes que, em julho de 1924, paralisou as atividades da sua empresa durante dois meses, causando grande prejuízo. Seguiu-se uma inesperada seca, que decorreu em um corte no fornecimento de energia. O maquinário gráfico só podia funcionar dois dias por semana. E numa brusca mudança na política econômica, Arthur Bernardes desvalorizou a moeda e suspendeu o redesconto de títulos pelo Banco do Brasil. A conseqüência foi um enorme rombo financeiro e muitas dívidas. Só restou uma alternativa a Lobato: pedir a autofalência, apresentada em julho de 1925. O que não significou o fim de seu ambicioso projeto editorial, pois ele já se preparava para criar outra empresa. Assim surgiu a Companhia Editora Nacional. Sua produção incluía livros de todos os gêneros, entre eles traduções de Hans Staden e Jean de Léry, viajantes europeus que andaram pelo Brasil no século XVI. Lobato recobrou o antigo prestígio, reimprimindo nela sua marca inconfundível: fazer livros bem impressos, com projetos gráficos apurados e enorme sucesso de público.
1925 - 1927
Lobato no Rio de Janeiro
Decretada a falência da Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato, o escritor mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por dois anos, até 1927. Já um fã declarado de Henry Ford, publicou sobre ele uma série de matérias entusiasmadas em O Jornal. Depois passou para A Manhã, de Mario Rodrigues. Além de escrever sobre variados assuntos, em A Manhã lançou O Choque das Raças, folhetim que causou furor na imprensa carioca, logo depois transformado em livro. Do Rio Lobato colaborou também com jornais de outros estados, como o Diário de São Paulo, para o qual em 20 de março de 1926 enviou "O nosso dualismo", analisando com distanciamento crítico o movimento modernista inaugurado com a Semana de 22. O artigo foi refutado por Mário de Andrade com o texto "Post-Scriptum Pachola", no qual anunciava sua morte.
1927 - 1931
Lobato em Nova Iorque
Em 1927, Lobato assumiu o posto de adido comercial em Nova Iorque e partiu para os Estados Unidos, deixando a Companhia Editora Nacional sob o comando de seu sócio, Octalles Marcondes Ferreira. Durante quatro anos, acompanhou de perto as inovações tecnológicas da nação mais desenvolvida do planeta e fez de tudo para, de lá, tentar alavancar o progresso da sua terra. Trabalhou para o estreitamento das relações comerciais entre as duas economias. Expediu longos e detalhados relatórios que apontavam caminhos e apresentavam soluções para nossos problemas crônicos. Falou sobre borracha, chiclete e ecologia. Não mediu esforços para transformar o Brasil num país tão moderno e próspero como a América em que vivia.
1931 - 1939
A luta de Lobato por ferro e petróleo
Personalidade de múltiplos interesses, Lobato esteve presente nos momentos marcantes da história do Brasil. Empenhou seu prestígio e participou de campanhas para colocar o país nos trilhos da modernidade. Por causa da Revolução de 30, que exonerou funcionários do governo Washington Luís, ele estava de volta a São Paulo com grandes projetos na cabeça. O que faltava para o Brasil dar o salto para o futuro? Ferro, petróleo e estradas para escoar os produtos. Esse era, para ele, o tripé do progresso.
1940 - 1944
Lobato na mira da ditadura
Mas as idéias e os empreendimentos de Lobato acabaram por ferir altos interesses, especialmente de empresas estrangeiras. Como ele não tinha medo de enfrentar adversários poderosos, acabaria na cadeia. Sua prisão foi decretada em março de 1941, pelo Tribunal de Segurança Nacional (TSN). Mas nem assim Lobato se emendou. Prosseguiu a cruzada pelo petróleo e ainda denunciou as torturas e maus-tratos praticados pela polícia do Estado Novo. Do lado de fora, uma campanha de intelectuais e amigos conseguiu que Getúlio Vargas o libertasse, por indulto, após três meses em cárcere. A perseguição no entanto continuou. Se não podiam deixá-lo na cadeia, cerceariam suas idéias. Em junho de 1941, um ofício do TSN pediu ao chefe de polícia de São Paulo a imediata apreensão e destruição de todos os exemplares de Peter Pan, adptado por Lobato, à venda no Estado. Centenas de volumes foram recolhidos em diversas livrarias, e muitos deles chegaram a ser queimados.
1945 - 1948
Os últimos tempos de Lobato
Lobato estava em liberdade, mas enfrentava uma das fases mais difíceis de sua vida. Perdeu Edgar, o filho mais velho, presenciou o processo de liquidação das companhias que fundou e, o que foi pior, sofreu com a censura e atmosfera asfixiante da ditadura de Getúlio Vargas. Aproximou-se dos comunistas e saudou seu líder, Luís Carlos Prestes, em grande comício realizado no Estádio do Pacaembu em julho de 1945. Partiu para a Argentina, após associar-se à editora Brasiliense e lançar suas Obras Completas, com mais de 10 mil páginas em trinta volumes das séries adulta e infantil. Regressou de Buenos Aires em maio de 1947, para encontrar o país às voltas com os desmandos do governo Dutra. Indignado, escreveu Zé Brasil. Nele, o velho Jeca Tatu, preguiçoso incorrigível, que Lobato depois descobriu vítima da miséria, vira um trabalhador rural sem terra. Se antes o caipira lobatiano lutava contra doenças endêmicas, agora tinha no latifúndio e na distribuição injusta da propriedade rural seu pior inimigo. Os personagens prosseguiam na luta, mas seu criador já estava cansado de tantas batalhas. Monteiro Lobato sofreu dois espasmos cerebrais e, no dia 4 de julho de 1948, virou “gás inteligente” - o modo como costumava definir a morte. Foi-se aos 66 anos de idade, deixando imensa obra para crianças, jovens e adultos, e o exemplo de quem passou a existência sob a marca do inconformismo.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
REPORTAGEM
Pesquisadora fala sobre o trabalho com a leitura nas escolas e a importância de o professor ser ele mesmo um leitor.
Meire Cavalcante
A leitura é um mundo. Talvez seja ela o mundo. Dar à criança a chave que abre as portas desse universo é permitir que ela seja informada, autônoma e, principalmente, dona dos rumos de sua própria vida. Afinal, não é à toa que se fala tanto em uso social da leitura e da escrita. E para despertar nos pequenos o gosto pela literatura é fundamental que os professores sejam eles mesmos grandes entusiastas dos livros. É o que defende Regina Zilberman, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A pesquisadora será uma das palestrantes do Seminário Prazer em Ler de Promoção da Leitura - Nos Caminhos da Literatura, que se realizará a partir de amanhã em São Paulo. O evento é uma iniciativa do Instituto C&A e da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).
Leia a seguir uma entrevista exclusiva com Regina sobre a leitura na escola. E não deixe de acompanhar, aqui no site, nos dias 22, 23 e 24 de agosto, a cobertura on-line do evento.
O que já pode ser considerado como premissas para o docente no trabalho com a leitura?
Regina Zilberman: Parece óbvio o que vou dizer, mas a premissa é a de que o professor seja um leitor. Não apenas um indivíduo letrado, mas alguém que, com certa freqüência, lê produtos como jornais, revistas, bulas de remédio, histórias em quadrinho, romances ou poesias. O professor precisa se reconhecer como leitor e gostar de se entender nessa condição. Depois, seria interessante que ele transmitisse aos alunos esse gosto, verificando o que eles apreciam. Esse momento é meio difícil, pois, via de regra, crianças e jovens tendem a rejeitar a leitura porque ela é confundida com o livro escolar e a obrigação de aprender. Se o professor quebrar esse gelo, acredito que conseguirá andar em frente. A terceira etapa depende de a escola, por meio da biblioteca, da ação do professor e do interesse dos alunos, disponibilizar livros para todos. Mas as publicações não podem ser produzidas pelos alunos. Caso contrário, impede-se o reconhecimento do livro como um produto industrial, com características específicas e dentro do qual existe a matéria para leitura. O aluno precisa reconhecer que essa matéria é oriunda de um terceiro, o autor, com o qual o leitor dialoga. Não existe fórmula para o trabalho com leitura em sala de aula, mas há uma série de pré-condições, como as que já citei e que considero mínimas. Precisamos, porém, reconhecer como fundamental também a valorização do trabalho do professor e o oferecimento de condições favoráveis de ensino, como segurança nas escolas públicas, livros na biblioteca, salas de aula equipadas, etc.. Essas são igualmente premissas, que não dependem do professor, mas de políticas públicas que tenham a Educação como foco principal.
O que já se sabe quando o assunto é leitura na escola?
Regina Zilberman: Há uma gama variada de pesquisas sobre o assunto, que começam com as questões de aquisição da escrita, estendem-se à psicolingüística e à sociolingüística e chegam à teoria da literatura, que desenvolveu uma ampla área de investigação relacionada aos processos de leitura e de formação do leitor. A escola, nesse caso, pode ser entendida tanto como o local onde se dá a aprendizagem da leitura e a preparação para o consumo de obras impressas, quanto como o espaço do desencantamento e da perda da magia trazida da infância, já que impede o contato direto com o mundo da oralidade, onde se fazia a transmissão original de histórias (contos de fadas, poemas, cantigas de ninar, etc.). A leitura na escola constitui um amplo campo de investigação porque, nas atuais condições de aprendizagem e ensino, é o lugar onde o indivíduo pode amadurecer intelectualmente ou retrair-se, evitando (ou minimizando) seus intercâmbios com o universo da cultura.
O que ainda precisa ser mais bem investigado nessa área?
Regina Zilberman: Acho que, no âmbito dos estudos literários, há ainda margem para estudar o impacto da leitura literária na formação do leitor, especialmente entre os jovens que freqüentam o Ensino Médio, território ainda não suficientemente mapeado nas pesquisas vigentes.
O que leva o professor a buscar um evento como este Seminário, que tratará de leitura?
Regina Zilberman: Eventos sobre leitura são bastante procurados por professores, pois eles se sentem bastante inseguros em relação à sua prática docente. Um congresso como o de leitura que se realiza na Universidade Estadual de Campinas, a cada dois anos, reúne cerca de cinco mil pessoas. Isso sinaliza igualmente o desejo de aprender por parte daqueles que ensinam. Além disso, há o interesse em socializar experiências bem sucedidas, razão porque é preciso estabelecer, em tais eventos, o momento de ouvir e o momento de falar. Nesses eventos se propicia o diálogo com o público e, sobretudo, a discussão sobre as alternativas que os professores encontram no trabalho com seus alunos.
No evento, o tema de sua apresentação será o Ensino Médio e a formação do leitor. Que tipo de leitores temos nesse nível de ensino?
Regina Zilberman: Os estudantes de classe média urbana chegam muito jovens ao nível médio. Mas lá também chegam alunos que têm apenas a noite para freqüentar a escola, já que trabalham durante o dia. Assim, há situações bastante distintas. No primeiro caso, não há grande diferença entre o aluno do oitavo ano do Ensino Fundamental e o do primeiro ano do Ensino Médio. Mesmo assim, há um amadurecimento nesse período que obriga o professor a lidar com uma situação híbrida, tendo de escolher livros que representem essa passagem (publicações recentes e que abordem temas associados a problemas do mundo contemporâneo). O professor provavelmente elegerá obras de maior estofo (ou as constantes de listas de vestibular) quando o aluno estiver no segundo ano do Ensino Médio. No segundo caso, a condição é outra: o aluno trabalhador é maduro, está preocupado com o serviço diário e não tem muitas oportunidades para ler e estudar.O espaço de leitura é o tempo da sala de aula e, nesse intervalo, o professor terá de ensaiar suas estratégias de ensino.
Qual a especificidade da leitura de textos informativos?
Regina Zilberman: Quem lê bem um conto ou um poema, lê bem uma notícia de jornal ou um manual de história ou de química. Se isso quer dizer que compete ao professor de língua e de literatura preparar bem o aluno para a leitura de qualquer tipo de texto, significa também que a aprendizagem da leitura envolve todo o corpo docente, e que um bom professor de História ou de Química ensinará os estudantes a ler adequadamente o material escrito onde está o conteúdo de sua matéria.
FONTE: REVISTA NOVA ESCOLA
Reportagem
O alívio para problemas como estresse e dores musculares - as maiores causas de afastamento da sala de aula- está nos mesmos fatores que garantem um ensino de qualidade.
O trabalho deve ser fonte de realização e prazer, mas pode causar sofrimento e enfermidades. Pesquisa NOVA ESCOLA e Ibope feita em 2007 com 500 professores de redes públicas das capitais revelou que mais da metade dos entrevistados sofre de estresse. Entre as queixas freqüentes estão dores musculares, citadas por 40% deles. Preocupa também o fato de 40% terem declarado sofrer de forma regular alguma doença ou mal-estar. Esse mal-estar docente, tão comum, ganhou até definição do pesquisador espanhol José Manuel Esteve: "Algo que sabemos que não vai bem, mas não somos capazes de definir o que não funciona e por quê".
Nos casos mais sérios, os sintomas acabam afastando os profissionais da sala de aula. No estado de São Paulo a maior rede do país, com 250 mil professores, são registradas 30 mil faltas por dia. Só em 2006 foram quase 140 mil licenças médicas, com duração média de 33 dias. O custo anual para o governo estadual chega a 235 milhões de reais - correspondente ao valor a ser destinado pelo Ministério da Educação (MEC) para construir, mobiliar e equipar 330 escolas de Educação Infantil em 2008. O problema se repete pelo país e faz com que as doenças de quem leciona tornem enfermo o sistema de ensino. "Em todas as redes o absenteísmo preocupa porque os prejuízos para o aprendizado são muito grandes", diz Cleuza Repulho, ex-presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação e consultora de Educação Básica do MEC. O tema vem despertando a atenção de pesquisadores. Tufi Machado Soares, da Universidade Federal de Juiz de Fora, estudou o impacto das faltas na rede mineira e constatou que os alunos da 4ª série que tinham mestres assíduos alcançaram média 15 pontos maior que a dos demais em Língua Portuguesa no Programa de Avaliação da Educação Básica de 2002. "Todo mundo perde com os afastamentos. Mas é importante que o direito de estudar acompanhe o direito de ter condições para oferecer uma boa aula", defende Roberto Franklin de Leão, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação. Sem dúvida, o que não pode é a falta virar a única estratégia para lidar com as questões de saúde. "Entender o que causa as doenças ou contribui para que elas se manifestem requer olhar para a sociedade, para o sistema educacional como um todo e para a relação com o trabalho", avalia Iône Vasques-Menezes, da Universidade de Brasília. Soluções para essa epidemia têm sido discutidas e colocadas em prática em diferentes níveis: secretarias criam programas de prevenção, escolas reorganizam processos e educadores buscam formas criativas de enfrentar as dificuldades do dia-a-dia. Todas elas, além de contribuir para o bem-estar e o desempenho do profissional, têm impacto positivo na qualidade da Educação. Os "remédios" prescritos - tanto no sentido de prevenção quanto no tratamento - são gestão, formação, organização do tempo, trabalho em equipe, relacionamento com os alunos, infra-estrutura, currículo e valorização social. Nenhum combate sozinho todos os sintomas, mas, associados, eles podem formar um coquetel eficaz para acabar com a situação de impotência diante de um sistema tão doente.
MUDANÇAS NA REDE
Apoio da direção traz segurança Uma gestão democrática e participativa é capaz de alterar as condições de trabalho dentro da escola, como relatam Analía Soria Batista e Patrícia Dario El-Moor no livro Educação: Carinho e Trabalho (Ed. Vozes). Instituições com maior participação dos pais e da comunidade têm mais materiais de apoio ao ensino e são mais limpas, por exemplo, o que contribui para melhorar o bem-estar de quem ali leciona. A presença de diretores e coordenadores pedagógicos que dêem suporte efetivo equipe escolar e se co-responsabilizem pelos resultados do ensino é, igualmente, fator de aprimoramento das condições profissionais. Nesses profissionais estão as respostas para dificuldades que vão de questões pedagógicas a problemas de relacionamento. É o que mostra à pesquisa Saúde e Apoio Social no Trabalho, realizada em 2006 por Rodrigo Manoel Giovanetti, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. "O apoio social tem efeitos moderadores do estresse e da síndrome do esgotamento, além de promover satisfação e produtividade", explica Giovanetti. As investigações em escolas públicas levaram o pesquisador a concluir que, quando o diretor deixa de focar a atuação nas questões burocráticas, ele consegue tornar o dia-a-dia menos desgastante para todos. Por sua vez, os coordenadores, que também ocupam posição de liderança, têm papel fundamental no acompanhamento da prática em sala. Essa ação tem o poder de minimizar as angústias do docente diante das adversidades. Em Itupiranga, a 630 quilômetros de Belém, uma mudança na gestão da Educação foi implantada tendo como foco a qualificação dos coordenadores pedagógicos. Três anos atrás, nem todos os 440 professores podiam contar com a ajuda desses profissionais. Desde então há encontros quinzenais para que eles recebam formação continuada com supervisão do Programa Além das Letras, do Instituto Avisa Lá. De acordo com a diretora de Ensino Rosanea do Nascimento de Lucena, antes os coordenadores não conseguiam desempenhar sua principal tarefa: organizar atividades de estudo com a equipe. "A estratégia uniu a rede e deu um suporte de conteúdo para os educadores."Os resultados são vistos também de forma significativa na saúde do grupo. Ainda há casos de estresse e depressão entre os mais velhos, que contam com acompanhamento psicológico. "Os novos dificilmente têm problemas por sobrecarga ou frustração, já que recebem apoio à prática."
VIVA CAPACITAÇÃO!
Bem-estar para quem se prepara Os conhecimentos sobre didática avançam; a necessidade de se manter atualizado com relação aos conteúdos é constante; as salas de aula estão se tornando inclusivas; a sociedade exige cada vez mais da escola; e, por fim, há um abismo entre a formação inicial e a prática do Magistério. A pressão e a ansiedade para se adequar a tudo isso muitas vezes dão origem a doenças, mal-estar e tensão. "O estresse aumenta quando a pessoa faz algo que não motiva. Por isso, temos investido em capacitação para dar melhor condição ao educador para se desenvolver e desempenhar sua função com prazer", afirma Marcos Monteiro, secretário-adjunto de Gestão do estado de São Paulo. Na rede paulista, na qual é altíssimo o absenteísmo por problemas de saúde, está sendo implantado um sistema de bonificação que terá entre os indicadores a assiduidade da equipe e o nível de aprendizagem dos alunos. De modo geral, os mais inexperientes não conseguem dar conta das situações cotidianas, e muito menos das imprevistas. "Eles tendem a controlar a turma com gritaria e ofensas", afirma Gisele Levy, que concluiu mestrado sobre o tema na Universidade do Estado do Rio de Janeiro no ano passado. Ela identificou que 70% dos quadros de cinco escolas de Niterói, a 20 quilômetros da capital fluminense, apresentavam sintomas da síndrome de burnout, caracterizada por exaustão física e emocional. Em início de carreira, muitos profissionais, de acordo com Gisele, se inibem e acabam dando aulas de forma mecanizada. Em situações como essa é improvável que os estudantes avancem. Quem encontra respostas adequadas aos dilemas da profissão consegue manter-se equilibrado e alcançar sucesso. Foi o que ocorreu com Liliane da Silva Oliveira Schanuel, de Petrópolis, a 68 quilômetros do Rio de Janeiro. Até 2006 ela trabalhava em uma escola em que não tinha ajuda para se aprimorar. Não dava para saber se eu estava indo no caminho certo. Era cansativo e estressante. Hoje ela dá aulas para a 3ª série na EM São José do Caetitu, onde a coordenação pedagógica é atuante. Lemos e debatemos sobre tudo o que nos cerca. O aprimoramento me trouxe tranqüilidade. Para Rosilene Ribeiro, da Secretaria Municipal de Educação de Petrópolis, a formação continuada é tão importante quanto a inicial. "Ela é útil para transformar questões cotidianas da prática em objetos de análise e reflexão". Com doutorado concluído na área, Rosilene atesta: "Os docentes planejam e avaliam com maior segurança". Aulas mais bem preparadas têm impacto no desempenho da turma e, por conseqüência, na satisfação profissional.
UMA NOVA VIDA
Horários para estudo e diversão Uma boa forma de reduzir o cansaço físico e mental e ainda melhorar os resultados de aprendizagem dos estudantes é ter tempo para estudar, planejar e reunir-se com os colegas sem esquecer os momentos de lazer. De acordo com a pesquisa NOVA ESCOLA e Ibope, os professores gastam em média 59 horas por semana em atividades ligadas ao trabalho 50% desse tempo em sala de aula. Metade deles tem menos de seis horas por semana de lazer. Esses são os que mais apresentam sintomas de estresse como insônia e dores de cabeça freqüentes. Há três anos, Valéria Hengleluz, que leciona em duas escolas de Osasco, na Grande São Paulo, teve diagnóstico de depressão. O maior motivo, acredita, foi a carga pesada de trabalho - 70 aulas semanais em até três turnos. Quando estava em casa, ela sentia que tudo melhorava. Mas, quando o momento de retomar as aulas se aproximava, ficava aflita. Em cinco ocasiões, chegou ao portão da escola e não conseguiu atravessá-lo. "Eu tinha uma sensação de perda total, me sentia inútil, achava que ia morrer." Valéria tirou licença médica e se afastou da EE Professor José Jorge e da escola particular em que lecionava. Para sair da crise e voltar a dar aulas, sua grande paixão, mudou a rotina: descansa mais, lê, assiste a filmes e faz caminhadas. "Antes eu quase não saía de casa. Agora, não recuso um convite para ir ao cinema." Ela definiu um limite de 40 aulas semanais de carga horária e, para se adaptar ao salário menor, reduziu as despesas pessoais. De acordo com Beatriz Cardoso, docente da Universidade de São Paulo e coordenadora executiva do Centro de Educação e Documentação para a Ação Comunitária (Cedac), em São Paulo, a gestão do tempo não está só nas mãos do professor. Essa tarefa depende também das condições oferecidas a ele pela rede. "Nesse nível, deve-se, em primeiro lugar, optar pelo que potencializa a aprendizagem e, em segundo, considerar outras particularidades da rotina escolar", define Beatriz. E aí estão incluídas as horas de trabalho pedagógico remuneradas, essenciais para a qualidade da prática. O poder do apoio dos colegas Maria Elizabeth Barros de Barros, da Universidade Federal do Espírito Santo, estudou as estratégias encontradas pelos docentes a fim de promover a saúde o que, para ela, não é a ausência de doenças, mas a crença na possibilidade de acabar com o que faz sofrer. "O mais eficaz é apostar na boa relação entre os professores e construir o sentimento de grupo", aponta. Por sua importância, o trabalho em equipe é um tema que deveria ser mais valorizado pelos gestores na opinião de Beatriz Cardoso. "É preciso pensar em meios e condições para que ele seja o mais produtivo possível." Quando há momentos de conversa e atividades coletivas, os profissionais e suas ações ficam mais fortalecidos. "Quem tenta fazer algo diferente sozinho acaba não tendo o respaldo dos colegas ou a orientação dos mais experientes", diz Maria Elizabeth. Se a troca de informações se torna prioridade no dia-a-dia da escola, surge em cada um o sentimento de que suas idéias são úteis para a produção social. Dessa forma, a prática pedagógica também é enriquecida - e os alunos só têm a ganhar. Na EMEF Professora Altamira Amorim Mantesi, em Araraquara, a 277 quilômetros de São Paulo, o trabalho em equipe faz parte do cotidiano. "O planejamento fica bem melhor com a troca de experiências", conta Bia Pinto César, que leciona para o 5º ano. "Eu não gosto de preparar aulas baseada apenas em um livro ou uma fonte. É ótimo quando uma colega me mostra um material novo que eu não havia encontrado em minhas pesquisas. Isso faz toda a diferença na qualidade do ensino." Bia considera o momento também um grande alívio para as pressões e cobranças do dia-a-dia: "Tenho muito mais segurança. Sem esse diálogo constante com minhas companheiras, seria bem mais difícil". A pesquisadora Maria Elizabeth acredita que no ambiente escolar pode haver espaço para choro e queixas - que aliviam a tensão cotidiana - desde que isso se torne algo positivo. "A queixa deve se transformar em alternativas para enfrentar as adversidades. Só reclamar leva a mais mal-estar", ressalta. O melhor meio de manter a paz A dificuldade de relacionamento com crianças e jovens em classe é a maior queixa dos professores, como mostra a pesquisa NOVA ESCOLA e Ibope. A falta de disciplina foi citada como o principal problema em sala de aula por 46% dos entrevistados. Maristela Rautta, de São Miguel do Oeste, a 693 quilômetros de Florianópolis, teve muitos momentos de estresse exatamente por causa disso. No ano passado, a professora do Grupo Escolar Municipal São João Batista de la Salle encontrou uma turma de crianças de 7 anos muito agitada. Elas subiam nas mesinhas e brigavam constantemente entre si. "A relação com as crianças é condição para a docência. Se ela está deteriorada, como ensinar? Essa é uma das razões do grande mal-estar entre os educadores", explica Inês Teixeira, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para Yves de La Taille, da Universidade de São Paulo, o desrespeito é um fenômeno discutido no mundo todo e ultrapassa os limites da escola. "A ausência do senso moral, da idéia de que o outro existe e eu preciso respeitá-lo, é geral." Um dos caminhos, segundo ele, seria a escola discutir princípios de forma sistemática para que os alunos entendessem o porquê das regras. Maristela seguiu linha semelhante e encontrou uma solução para a indisciplina dentro da sala com o apoio da coordenadora, Clarisse Thums, e de toda a equipe. Ela estabeleceu regras, levou as crianças a discutir seus sentimentos em relação aos pais e à escola e a refletir sobre as atitudes de convivência. Além disso, Maristela também mudou sua forma de dar aulas - esse resgate da autoridade pelo conhecimento, segundo De La Taille, é outro ponto essencial nas relações entre estudantes e mestres. "Muitos alunos não avançavam no aprendizado, e alguns não estavam alfabetizados. Agora eu procuro desafiá-los o tempo todo. Hoje me sinto muito bem e uma profissional bem melhor", diz ela.
REGRAS PARA TODOS
Boas condições, bom desempenho O espaço da escola afeta tanto o cotidiano dos professores quanto o dos alunos. A precariedade das condições físicas dificulta as aulas, tornando-as desgastantes e reduzindo a produtividade. Mobiliário inadequado ou classes sem boa ventilação, iluminação ou acústica podem causar ou agravar problemas de saúde, como os osteomusculares ou de voz. Rejane Cristina dos Santos, da EE Imaculada Conceição, em Pedro Leopoldo, a 46 quilômetros de Belo Horizonte, sofreu em razão das condições inadequadas do ambiente e do mau uso que fazia da voz falava alto e permanecia em contato com pó de giz por tempo demasiado. No ano passado, ficou completamente afônica durante 15 dias. Passado o susto, ela se valeu da criatividade para voltar à sala de aula: construiu painéis em que escreve com canetão e usa microfone. Iniciativas individuais como a de Rejane são relevantes, mas cabe aos gestores da rede e da escola cuidar da questão. Há oito anos, Joice Salete Silverio Pires, da EM Marumbi, em Curitiba, começou a acordar sem voz. O problema poderia ter se agravado se a diretora não a tivesse encaminhado ao programa municipal de qualidade vocal. Ela fez um tratamento fonoaudiológico e operou nódulos nas cordas vocais. "Depois disso, a prefeitura disponibilizou um microfone para eu usar em classe", conta Joice. Além de seu bem-estar, garantiu-se, assim, a qualidade do ensino que ela ministra.
Também visando à aprendizagem, o Tocantins está definindo padrões de qualidade do ambiente escolar que incluem conforto acústico, ventilação, temperatura e iluminação adequadas e acessibilidade. "Criamos políticas para reduzir os riscos para alunos e professores, pensando em saúde e Educação de forma articulada", diz Maria Auxiliadora Rezende Seabra, secretária de Educação e Cultura.
NADA DE GRITOS E PÓ - Rejane, de Pedro Leopoldo, usa painéis que dispensam giz e microfone para curar os problemas de voz.
Um rumo para a prática Ter clareza sobre o que ensinar é condição para que os docentes executem bem sua função em classe. Apresentar esses conteúdos é papel das diretrizes curriculares. "Quando há referências e metas, apontando caminhos para os quais se deve ir o professor toma decisões com maior segurança e isso tem impacto na qualidade da Educação", afirma Neide Nogueira, da equipe responsável pela elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Com a certeza de ter as condições necessárias para desempenhar bem sua função, o educador sofre menos. Os PCNs foram elaborados com o objetivo de proporcionar uma formação ampla ao aluno, torná-lo alguém que põe o conhecimento em uso na vida social. Cada secretaria deve se apropriar dessas referências e adequá-las ao contexto local. "Cabe às escolas, por sua vez, criar um projeto pedagógico que defina priorida- des e ações", diz Neide. O ideal é que elas montem um currículo completo para que a equipe docente saiba a fundamentação teórica adotada, o histórico do ensino das disciplinas, os objetivos de aprendizagem de cada ciclo ou série, os conteúdos que devem ser trabalhados e as orientações didáticas. Para se tornar eficaz, no entanto, um currículo precisa ser elaborado com a participação de todos os envolvidos no processo educativo. Diretrizes definidas nos gabinetes e apenas apresentadas a quem deve segui-las trazem descontentamento e mais angústia. Preocupada em atualizar a proposta curricular que tinha até então, a equipe da Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande decidiu estender a discussão a todos os gestores, às equipes técnicas e aos professores, o que deu origem a um novo documento, já em fase de consolidação. "Houve encontros e debates nas escolas, até com a comunidade e os estudantes, e um forte intercâmbio", conta Leusa de Melo Secchi, técnica da divisão de Educação Infantil da rede. Para ela, o mais significativo da experiência é poder socializar conhecimentos e dividir responsabilidades. A definição coletiva do trabalho dá a tranqüilidade de lecionar sabendo exatamente onde pisar. "Todos têm o compromisso com o que foi produzido e até com os possíveis erros."
RECEITA FINLANDESA
Satisfação vem com prestígio O apoio da sociedade aos educadores está diminuindo. É o que sente um terço dos professores brasileiros, segundo a pesquisa NOVA ESCOLA e Ibope. Isso acaba afetando seu bem-estar e seu desempenho em sala de aula. "A progressiva desqualificação e o não-reconhecimento social potencializam o sofrimento dos docentes", assinala Mary Yale Rodrigues Neves, da Universidade Federal da Paraíba. Quando se fala em valorização social, o sentido não deve ser apenas retórico, o que inclui homenagens e discursos em favor do Magistério. Essa é a opinião de Inês Teixeira, da UFMG: "A valorização tem de ser real. Profissional reconhecido é aquele que dispõe de boas condições de exercer sua função no dia-a- dia, salário compatível com o que se espera dele e políticas públicas que cuidem de sua formação e sua saúde". A Finlândia, o país com a melhor Educação do mundo segundo o Pisa, avaliação feita pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, é um lugar em que a carreira docente está entre as mais concorridas e desfruta de grande prestígio. Lá, as principais apostas do sistema educacional são um currículo amplo e a formação docente. "A escola é o reflexo da sociedade na qual está inserida", conclui Inês Teixeira.
Quer saber mais?
CONTATOSEE Imaculada Conceição, R. Armando Filho, 80, 33600-000, Pedro Leopoldo, MG, tel. (31) 3662-1837
EE Professor José Jorge, Av. Pinheiro, 70, 06184-300, Osasco, SP, tel. (11) 3695-0395
EM Marumbi, R. Francisco Licnerski, 50, 81590-250, Curitiba, PR, tel. (41) 3364-1092
EM São José de Caetitu, Estr. do Caetitu,1036, 25720-020, Petrópolis, RJ, tel. (24) 2221-3412
EMEF Professora Altamira Amorim Mantesi, Av. Alziro Zazur, s/n°, 14806-323, Araraquara, SP, tel. (16) 3324-2887
Grupo Escolar Municipal São João Batista de la Salle., Conjunto Habitacional São Luiz, s/n°, São Miguel do Oeste, SC, 89900-000, tel. (49) 3622-7114
Secretaria da Educação e Cultura do Estado do Tocantins, Pça. dos Girassóis,s/n°, 77001-910, Palmas, TO, tel. (63) 3218-1400
Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande, R. Oniceto Severo Monteiro, 460, 79002-949, Campo Grande, MS, tel. (67) 3314-3800
Secretaria Municipal de Educação de Itupiranga, Av. 14 de Julho, s/n°, 68580-000, Itupiranga, PA, tel. (94) 3333-1234
segunda-feira, 7 de abril de 2008
DIA MUNDIAL DA SAÚDE
Semana Saudável
Muitas pessoas com diabetes têm medo do nutricionista. Imaginam que ele é o “carrasco que vai dar um monte de proibições e passar uma dieta rígida, que não vai ser possível seguir”.
Dra. Rosane Kupfer, Chefe do Serviço de Diabetes do IEDE, diz que a integração médico-nutricionista é essencial para um bom tratamento de diabetes. “Às vezes o paciente se alimenta de forma incorreta por desconhecimento”, afirma. Um estudo feito por ela e pela Dra. Cláudia Pieper na Unidade de Educação do IEDE concluiu que a maior dificuldade das pessoas é manter uma alimentação correta, mesmo daquelas que eram bem instruídas.
Dra. Rosane orienta que o primeiro contato com o nutricionista seja feito o mais rápido possível, para que os resultados do tratamento de diabetes sejam rápidos e para evitar situações como hipoglicemia, que assusta muito o paciente com diabetes. “O profissional de nutrição colabora muito com o sucesso do tratamento. A parceria médico-nutricionista torna o paciente mais autônomo, mais independente”, afirma.
Ela recomenda que todas as pessoas com diabetes se consultem apenas com o médico, mas também com o nutricionista. “Mesmo aqueles que possuem bons hábitos alimentares, pois eles podem precisar aprender novidades, como a contagem de carboidratos”, explica.
Como é a Consulta
Dra. Wilma Rodrigues de Amorim, Chefe do Serviço de Nutrição do IEDE, explicou como é feita a consulta com a pessoa com diabetes.
O primeiro passo é olhar o encaminhamento médico, para saber porque o médico recomendou a consulta. O nutricionista olha também os exames laboratoriais, para ver qual a situação do controle do diabetes. Também são medidos peso, altura e circunferência abdominal, para saber se a pessoa com diabetes também necessita emagrecer.
A próxima etapa é saber como é a rotina e quais as preferências alimentares da pessoa com diabetes, se trabalha ou estuda e que atividades físicas pratica. “Quando vem uma criança, precisamos saber, por exemplo, se ela estuda de manhã ou à tarde, a que horas ela pratica esportes, para saber como distribuir a alimentação”, explica.
Dra. Wilma afirma que as pessoas com diabetes não precisam ter medo do nutricionista. “Nosso papel não é obrigar a comer nada. Procuramos adaptar, achar alternativas para que se alimente de um modo saudável, saboroso e que não afete a glicemia. O nutricionista é um profissional que negocia a alimentação, não impõe. Não se pode montar um plano alimentar em cima de proibições”, esclarece. “Se a pessoa gosta muito de pastel, podemos negociar para que ela coma algumas vezes por semana, cada caso é um caso”, completa.
A nutricionista ainda ressalta que é importante que a pessoa com diabetes aprenda a contagem de carboidratos, pois permitirá uma flexibilidade maior na dieta, sem elevar excessivamente os níveis de glicose. “Também deve se negociar quando comer os alimentos açucarados, pois nem as pessoas que não têm diabetes podem ingeri-los à vontade”, ressalta.
Outra recomendação da nutricionista é não compartilhar dietas. “Cada pessoa tem uma necessidade alimentar e vida diferente. Alguns são gordos, outros magros; uns praticam esportes, outros não; alguns estudam ou trabalham de manhã, outros à tarde. Isto tudo interfere nas necessidades nutricionais”, explica.
domingo, 6 de abril de 2008
RECEITA

- Ingredientes
- Preparo
- Rendimento: 500 gramas
Info. Nutricional/ Porção *** Receita Modificada *** Receita Tradicional
Calorias *** 50,3 *** 80,8
Carboidratos (g) *** 1,56 *** 1,56
Proteína (g) *** 3,43 *** 3,43
Gordura total (g) *** 3,38 *** 6,76
Fibras (g) 0
Substituto de carboidrato
- Redução de 28,0 % para conteúdo de calorias
sábado, 5 de abril de 2008
Para refletir

sexta-feira, 4 de abril de 2008
PERSONALIDADE DA SEMANA
quinta-feira, 3 de abril de 2008
SÍNDROME DE BURNOUT

A Síndrome de Burnout, uma espécie de estresse crônico, constitui uma das principais doenças ocupacionais do mundo moderno e pode provocar importantes desordens psicológicas em seus portadores (Revista Medicina & Companhia,n.10, 2006).
Primeiramente, o distúrbio foi constatado somente em profissionais da área da saúde envolvidos com alto fluxo de morbidade ou mortalidade, como nas Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs), nos serviços de oncologia ou de tratamento contra a AIDS. Mas com o tempo percebeu-se que outros profissionais envolvidos com pessoas, como professores, policiais e carcereiros entre outros entravam em exaustão.
A síndrome envolve três componentes: o esgotamento emocional, sentimento de que a energia vital foi drenada; a despersonalização, atitudes negativas nas relações interpessoais; e a propensão ao abandono, que afeta a habilidade para a concretização do trabalho. No entanto, “o mal-estar tende a piorar já que a pessoa pode se sentir com remorsos por não estar trabalhando” (Revista Medicina & Companhia,n.10, 2006).
A Síndrome de Burnout apresenta-se hoje, como um dos mais graves problemas psicossociais, o que tem gerado grande interesse e preocupação não só por parte da comunidade científica internacional, mas também de entidades governamentais, empresariais e sindicais norte-americanas e européias, devido a severidade de suas conseqüências, tanto no nível individual como organizacional.
No Brasil, estudo sobre este tipo de estresse ocupacional, encontra-se em fase incipiente, bem como seus aspectos de prevenção e a intervenção do psicólogo neste campo.
O interesse por este campo aumentou devido três fatores, sendo que o primeiro deles foi a importância de melhoria de qualidade de vida e modificações introduzidas no conceito de saúde pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O segundo fator foi o aumento da demanda e das exigências da população com relação aos serviços sociais, educativos e de saúde. E, por último, a conscientização de pesquisadores, órgãos públicos e serviços clínicos com relação ao fenômeno, entendendo a necessidade de aprofundar os estudos e a prevenção da sua sintomatologia pois a mesma se apresentava mais complexa e nociva do que tinham conhecimento.
Nos anos de 1980, apareceram estudos que apresentaram resultados considerados alarmantes. Foram identificados sintomas em grupos profissionais que até então não eram considerados população de risco, pelo contrário, por tratar-se de profissões consideradas vocacionais acreditavam que estes profissionais obtinha gratificações em todos os níveis, dos pessoais aos sociais.
Também foram encontrados resultados que mostravam ocorrência de Burnout em pessoas com personalidades aparentemente ajustadas e equilibradas até entrar em contato com ambientes de trabalho específicos.
Importantes perdas de recursos humanos e econômicos foram detectadas pelas organizações , principalmente educativas e de saúde, onde estudos foram realizados, indicando altos níveis de Burnout, ocasionado principalmente ausências por doenças, fadiga, desilusão, absenteísmo, e declínio da motivação.
Passados mais de 25 anos de estudos sobre este fenômeno, estudiosos do assunto, colocam que o mesmo não tem mais se restringido hoje a profissões ligadas à saúde e educação, sendo este visto como um fenômeno que afeta praticamente todas as profissões, uma vez que a tendência atual é pensar em Burnout em profissões que possuem intenso e constante contato interpessoal.
Com o intuito de difundir aspectos relevantes deste mal-estar, bem como o de propor possibilidades de ação para a psicologia organizacional, este artigo aborda a síndrome como um fenômeno psicossocial.
Como fugir do Burnout
A recuperação dos portadores do distúrbio é mais bem sucedida quando medidas de suporte, com profissionais treinados para situações de crise, são mesclados com medicação adequada.
Além disso, o tratamento não se limita à recuperação, mas deve fornecer instrumentos para transformar as situações problemáticas em atitudes produtivas e saudáveis. Entre as principais medidas destacam-se: 1) evitar monotonia; 2) abandonar as horas extras em excesso; 3) ter um melhor suporte social; 4) a melhoria nas condições sociais e físicas do trabalho e 5) um investimento no profissional e pessoal através de aperfeiçoamento.
REFERÊNCIAS:
Revista Medicina & Cia, n.10. Disponível no site: http://www.amp.org.br/noticias7/r10estress.htm Acesso em: 12/05/2006.
http//: www.fea.usp.br/fia/livros/97/liv97-stress&trabalho.htm
http//: www.kmpress.com.br/pormai05.htm
http//: www.redegestao.com.br/desafio21/gec135.html
http//: www.tiadro.com/artigos/artigo111.html
http//: www.ulbra.br/psicologia/margob.htm#estress
http//: www2.uel.br/ccb/psicologia/revista/textov2n15.htm
quarta-feira, 2 de abril de 2008
A ESCOLA TRADICIONAL X ESCOLA CRÍTICA E AS NOVAS PERSPECTIVAS DA EDUCAÇÃO
Helena ferreira
1- A RELAÇÃO PEDAGÓGICA
O ser humano, como um ser que pensa e projeta as suas ações, é capaz de criar metas a partir das experiências e interações que processa no ambiente. Essas metas permitem a ele definir objetivos e avaliar possibilidades para planejar novas ações. É um processo contínuo, no qual conhecimentos múltiplos entrecruzam as relações e permitem a produção permanente de outros conhecimentos. No decorrer da história da Humanidade isso sempre aconteceu e nesse processo de interação, uma infinidade de conhecimentos, foram sendo produzidos, acumulados e transmitidos de geração a geração. Assim, os grupos sociais foram sendo constituídos aglutinando idéias, valores, crenças e atitudes comuns e, da mesma forma, foram recriando a si mesmos.
Essa dinâmica nos permite dizer que o processo educativo se faz por meio de uma relação de comunicação em que os sujeitos interagem e criam vínculos de sentidos e significados entre si, presentes no conjunto dos conteúdos sociais produzidos na interação. Tal relação é chamada relação educativa ou relação pedagógica.
Um processo de interação mútua, de comunicação e educação é, por vezes, imperceptível para os sujeitos envolvidos, como é o caso das relações sociais cotidianas. São chamados, por isso, de processos educativos informais. Assim, aprendemos a nos comportar como os nossos familiares, apenas pelo convívio com eles.
Em outros momentos, esse processo é organizado intencionalmente, como no caso da instituição escolar e dos sistemas de ensino. Nesse caso, o processo educativo acontece de maneira formal, segundo planejamento e organização prévios. Isso nos permite afirmar que a escola não é o único espaço de educação dos sujeitos e que, da mesma forma, o professor não é o único profissional responsável pelo processo educativo.
A relação pedagógica se estabelece numa dinâmica interativa em que os conhecimentos são comunicados e elaborados pelos envolvidos, permitindo movimentos mútuos e complementares de ensino e aprendizagem. Os sujeitos utilizam diversos modos para apreender esses conteúdos e variadas formas para expressá-los: oralmente, por meio do corpo, por meio de signos e símbolos visuais, musicais, estéticos e outros.
No entanto, é comum considerar-se apenas a escola como o local onde se ensina e o professor como o único responsável por esse processo. Isso porque a sociedade instituiu sistemas escolares responsáveis por processos formais de Educação e a escola ficou visivelmente definida como aquele espaço de coordenação, liderança e definição do que deveria ou não ser ensinado. Esta leitura da situação educativa torna-se restrita quando desconsidera os processos sociais globais como educativos por si mesmos. Torna-se restrita, também, quando desconsidera o processo pedagógico por que passa o professor no decorrer da relação pedagógica estabelecida. O professor aprende sobre a melhor forma de ensinar, organizar o trabalho e aprende sobre as melhores decisões a serem tomadas sobre o que se deve ser feito nos próximos encontros ou aulas.
2- A RELAÇÃO PEDAGÓGICA TRADICIONAL
Vamos recordar um pouco as origens dos sistemas escolares e da escola. A escola, como instituição a serviço de um sistema educacional, regulado por leis que estabelecem os direitos e deveres da cidadania, tem suas raízes no contexto das lutas travadas nos séculos XVI e XVII, que culminaram com a Revolução Francesa, no século XVIII. Esse período pode ser apontado como um dos mais significativos da história da Humanidade envolvendo uma verdadeira revolução intelectual, moral e científica. Nessa época, uma nova mentalidade começa a ser desenvolvida, baseada na Ciência – entendida como a forma própria de desenvolvimento das chamadas Ciências Naturais. Essa mentalidade irá dominar o mundo (ocidental, principalmente), determinando normas, ideais, atitudes e comportamentos próprios de um novo tempo. É a ideologia do progresso, que apresenta a Ciência como o saber verdadeiro, útil e libertador, que incita o povo a seguir o caminho traçado por ela, porque, decididamente, é o caminho do bem. (Japiassu, 1994:164)
Foi nessa época e nesse contexto que a Modernidade criou os sistemas escolares e a escola, em particular. Essa era a instituição social cujo papel seria formar a juventude segundo um modo social de comportamento. A formação dessa nova mentalidade exigiria a incorporação não só de novos conteúdos, mas, também, de novos valores e atitudes adequados a ela. Assim, passava a ser bom e verdadeiro aquilo que estivesse dentro dos preceitos da Ciência e de seu método de produção.
Nesse contexto, a escola, instituição social criada e vinculada à nova estrutura social e econômica vigente, deveria refletir e reproduzir as relações sociais dessa própria sociedade. O objetivo maior da relação pedagógica escolar seria, então, o de controlar os significados e os valores sociais e culturais das pessoas no sentido da apreensão daquilo que a sociedade considerava verdadeiro e correto.
Nessa perspectiva, a educação escolar é vista como um processo de transmissão dos conhecimentos escolares acumulados pela Humanidade e das formas de produção desses conhecimentos. O processo pedagógico escolar, baseado em modelos tidos com perfeitos e inquestionáveis, desencadeia uma prática diretiva, por vezes autoritária, e pressupõe que o professor tenha o domínio do processo e dos saberes nele envolvidos. O modelo a ser almejado e seguido é do homem intelectual – aquele que expressa claramente “suas idéias”, com brilhantismo e citando os “grandes mestres” ou os “grandes pensadores” porque esses grandes mestres e pensadores foram os precursores e criadores desse conhecimento.
Essa perspectiva vislumbra um ideal de relação pedagógica que aponta a aula expositiva como a forma privilegiada e a mais adequada de ensinar, e o conteúdo veiculado pelo professor – bem como ele mesmo – como o centro do processo. Assim, é necessário saber falar, argumentar bem e com lógica, para ser considerado um bom professor. Além disso, é indispensável ter erudição, conhecer os clássicos, deter as informações sobre os conteúdos, sendo, por isso, “a autoridade”. O aluno deve apenas segui-lo, deve se espelhar no seu conhecimento e apreender fielmente o que ele determina. Os exames escritos e orais irão dizer quem sabe e quem não sabe e quem é capaz e quem não é, para permanecer na escola. Aqueles que porventura fracassarem, serão reprovados, e muitas vezes, até convidados a se retirarem da escola. Esse processo educativo está orientado por princípios de seleção e exclusão.
Observa-se que a relação pedagógica professor / aluno / conhecimento é semelhante àquela que se trava entre os sujeitos, a sociedade e a cultura acumulada. O lugar dos bem sucedidos e o valor que lhes é conferido na escala social são justificados, também, a partir da escola, isto é, acredita-se que quem é aprovado pela escola provavelmente terá seu lugar garantido na sociedade.
Uma questão curiosa situa-se na própria relação que os sujeitos estabelecem com a cultura, colocada como um objeto externo a eles, como um alvo a ser alcançado, como um bem especial a ser conquistado, e não como uma produção social. Existe um padrão de perfeição a ser seguido e a escola assume e organiza as suas ações educativas em torno desse referencial. A principal função da escola é, então, a de adaptar e ajustar os alunos, que devem adquirir atitudes favoráveis aos valores e crenças dominantes, vistas como positivas e legítimas. A sociedade como um todo é considerada positiva, assim como a escola como instituição e aquilo que ela ensina, porque ela deve ser o espelho dessa sociedade.
Esse tipo de relação pedagógica tem sido classificada por diferentes autores como tradicional, assim como é denominada toda a pedagogia baseada nesse tipo de relação. Apesar de seus aspectos criticáveis no contexto atual, esta concepção de relação pedagógica pode ter dimensões positivas relacionadas, por exemplo, ao desenvolvimento do autodomínio, ao conhecimento das grandes obras da Humanidade e à importância que se dá à aprendizagem da modalidade culta da língua.
3- A RELAÇÃO PEDAGÓGICA TRADICIONAL NO BRASIL
Em nosso país, um ponto importante a ser comentado sobre a relação pedagógica tradicional diz respeito à sua versão religiosa, aqui implantada pela ação dos jesuítas, e posteriormente reforçada por outras ordens religiosas.
A concepção de escola laica e para todos, que caracterizou os ideais da Revolução Francesa, ganhou visibilidade no Brasil apenas no fim do período imperial e, principalmente, depois da implantação do regime republicano. No entanto, a concretização da idéia de um sistema de Educação para todos os brasileiros esbarrou nos valores de uma sociedade escravista, em que negros, índios, e mesmo brancos pobres eram considerados não civilizados.
Nas escolas religiosas que atendiam à elite, vigora uma concepção de relação pedagógica também tradicional e centrada no mestre, embora seus modelos não fossem exatamente os clássicos greco-romanos, que eram substituídos por princípios da fé e da moral católicas.
4- A RELAÇÃO PEDAGÓGICA INSPIRADA NA NOVA ESCOLA, NO BRASIL
O ideário da Escola Nova disseminou-se no Brasil mais tarde do que na Europa e nos Estados Unidos. Somente no fim da década de 1920, ocorreram, em diferentes estados brasileiros, reformas educacionais inspiradas nesse ideário. Também a idéia de constituir um Sistema Educacional de Educação, integrando os vários os vários sistemas estaduais e os diferentes níveis educacionais, tomou corpo nessa época sob a influência dos pioneiros da educação nova, entre os quais se destacam Anísio Teixeira, Lourenço Filho, entre outros. Defendendo a escola laica, a escola pública e gratuita e a co-educação entre os sexos, o ideário escolanovista encontrou resistência por parte dos educadores católicos, que defendiam concepções tradicionais vinculadas à religião. Essa oposição de forças marcou profundamente as discussões em torno da Lei de Diretrizes e Bases de 1961, sendo uma das causas que prolongaram sua tramitação no Congresso Nacional por mais de uma década.
A relação educação laica x educação religiosa tem, hoje, outros contornos, marcando-se mais pela oposição entre escola pública e escola particular, e pela presença de outras religiões (principalmente evangélicas), além da católica.
5- A RELAÇÃO PEDAGÓGICA NO CONTEXTO DO TECNICISMO
O Tecnicismo no Brasil diz respeito principalmente à proposta pedagógica que dominou o contexto sócio-político brasileiro nos anos 1960/70 época de ditadura militar. Nessa situação ambígua e conflituosa, tentou-se construir uma proposta educativa orientada pelas coordenadas políticas predominantes e implantadas a partir da lei 5692/71.
As principais teorias que fundamentaram essa concepção foram: o Estrutural Funcionalismo, as Teorias do Capital Humano e da Modernização.
A primeira, por exemplo, defende a visão organicista da sociedade e de suas instituições, comprometendo-as como um conjunto de partes que, embora distintas, se articulam entre si de maneira orgânica. A concepção de unidade é, então, a articulação e o reforço da dimensão individual.
A Teoria do Capital Humano complementa a idéia, quando vê as capacidades e conhecimentos humanos como fontes de valor econômico e de desenvolvimento social. Associada à Teoria da Modernização, passa a enxergar a escola como redentora de todos os problemas sociais pela sua função de formadora de quadros assim como de adaptadora e ajustadora dos homens à sociedade em desenvolvimento.
6- A RELAÇÃO PEDAGÓGICA PROGRESSISTA, NO BRASIL.
Com o fim da ditadura militar, a abertura política permitiu que inúmeros problemas aflorassem, revelando uma realidade social impregnada pelas desigualdades sociais, culturais e econômicas e evidenciando o fracasso escolar das camadas populares nos elevados índices de evasão e repetência, como um grave problema a ser enfrentado. Nesse contexto, a necessidade de transformação dos processos de gestão escolar em busca da democratização e das relações sociais passaram a ser considerados aspectos essenciais das políticas públicas educacionais.
Dentro desse contorno, questões fundamentais deveriam ser consideradas em relação ao fenômeno educativo: Quem é o sujeito da educação? Como as desigualdades sociais, culturais e econômicas afetam esses sujeitos? Como esses sujeitos pensam a realidade em que vivem?
Surge, entretanto, uma nova proposta: o processo educativo deve basear-se no conjunto de experiências sociais do sujeito da Educação, já que essas vivências conferem o sentido e o significado de toda relação deles com o mundo. Já não se trata de um aluno abstrato, mas de um aluno cidadão, inserido num ambiente repleto de diversidades e de valores contraditórios.
Uma nova pedagogia denominada Progressista por Snyders passa a ser divulgada, assim como as propostas do grande educador Paulo Freire. Se a sociedade não oferece a todos os cidadãos, condições equânimes de cidadania, a escola espaço de direito do cidadão, não pode ser uma instituição que legitime essa distorção da sociedade.
Essas questões acenaram para uma alteração radical na concepção de escola e de processo de escolarização, em concordância com a reviravolta no referencial de valores pelos quais toda a sociedade se orientava. Observa-se, que até hoje, que muitos ainda têm dificuldade em entender isso.
7- MARCOS HISTÓRICOS NA CONSTITUIÇÃO DA RELAÇÃO PEDAGÓGICA
Dentre muitos, três educadores que influenciaram as práticas educativas com suas idéias, trazendo suas propostas para complementar esse estudo sobre a relação pedagógica em suas diferentes abordagens.
Maria Montessori, a educadora de crianças, revolucionou os ambientes escolares, especialmente relacionados à Educação infantil.
A pedagogia montessoriana baseia-se no processo de desenvolvimento da criança e, para isso, o ambiente é fundamental. Ele deve ser preparado com material específico para favorecer a atividade, permitir a ação adequada dentro do ritmo próprio e propiciar as trocas de experiências.
Célestin Freinet orientou sua obra para o ensino da massa e para a Educação popular. Como outros educadores de sua época, também foi um severo crítico das práticas escolares convencionais. Segundo ele:
Em nossa velha escola, é o professor quem mais se desgasta... é ele o único em sua classe a manifestar alguma atividade, como se esta pudesse bastar para preparar os jovens alunos para a vida. O evidente insucesso da escola atual certamente é devido, em grande parte, a este erro dos educadores que acreditaram por muito tempo na onipotência de sua palavra e de suas aulas ministradas a alunos “de braços cruzados”. (Freinet, 1979:63)
Sua pedagogia apóia-se na livre expressão, na liberdade e na confiança para escrever, ler, fazer, movimentar-se e trabalhar. Entretanto, segundo ele, uma relação pedagógica capaz de aproveitar o máximo de liberdade se apóia na organização e a exige. Ao professor cabe estudar as condições de trabalho para estruturá-lo e torná-lo interessante. As possibilidades de liberdade sustentam, suscitam e animam a relação.
Para Freinet:
Não partiremos sistematicamente da ciência ou das realizações adultas para descer à criança. Tomaremos o caminho inverso: considerando a criança tal como é, com seus interesses e necessidades particulares, com seu raciocínio e sua lógica especial, nós a ajudaremos a desenvolver-se; organizaremos e preparemos o meio e os meios que lhe permitirão educar-se, com nossa ajuda, até a ciência adulta. (1979: 54)
A Pedagogia Freinet é a pedagogia do bom senso, que serve à vida. É o saber fazer antes do saber dizer. De acordo com o autor, ao invés de se oferecerem noções e princípios às crianças, é fundamental prepará-las para enfrentar o mundo com habilidade e inteligência.
Como não poderia deixar de ser citado o nosso querido educador, brasileiro, cidadão do mundo, Paulo Freire.
A Pedagogia de Freire fundamenta-se numa teoria do conhecimento, em que o saber tem um papel emancipador porque permite a libertação das consciências. Os homens que indagam sobre si mesmos e sobre a Natureza e que constroem a realidade em que vivem.
O educador, antes de pensar numa relação pedagógica centrada nos processos escolares, aponta para a perspectiva de formação do ser humano e das relações que estabelece com o ambiente natural e social.
O diálogo, para Paulo Freire, é método, fonte de conhecimento e processo de comunicação legítima. Segundo o autor, o educando e o educador, em diálogo, estabelecem um processo dinâmico, ativo e criador, de relação com o conhecimento. E para se exercer um verdadeiro diálogo, a relação pedagógica deve ser fundamentada na esperança, na fé, na humildade, no amor, na confiança e na criticidade.
8- RELACIONANDO OS DESAFIOS DA ESCOLA CRÍTICA COM A ESCOLA TRADICIONAL
Na escola tradicional, a criança quando entra na escola, já encontra um corpo de regras às quais deve obedecer, pois fazem parte da cultura escolar. E nem sempre ela se integra a essa cultura escolar, permanecendo, neste caso, como que exilada ou excluída. Em verdade os traços heterônomos de tal cultura, com a conseqüente prevalência das relações sociais de coação e do respeito unilateral, além de seu elitismo, são fatores que dificultam à criança sua identificação com a escola. Seguem-se, daí, muitos comportamentos que quebram e burlam as regras e se configuram para os professores como comportamentos de indisciplina.
A educação tradicional se apóia na oralidade e na textualidade. Modos ainda fundamentais e sempre referenciais para a produção de conhecimento. No entretanto, a prática educativa dialoga com linguagens comunicativa que atualmente se utilizam da síntese de série de elementos.
Já numa escola crítica, uma forma de lidar com essa situação, se pode enriquecer e diversificar a cultura escolar com experiências de cooperação, aumentando a probabilidade de que as relações sociais de igualdade e de respeito mútuo predominem sobre as relações de coação.
Se, desde o início do século XX, o modelo de organização de organização curricular já estava sofrendo críticas, as rápidas e profundas mudanças ocorridas na sociedade acabaram por exigir da escola um repensar de sua prática, para que possa responder às necessidades do mundo contemporâneo.
Assumir uma ou outra perspectiva traz mudanças significativas na forma de conceber o conhecimento escolar, o papel dos professores e dos alunos, a organização dos tempos, dos espaços e dos conteúdos escolares. O quadro seguinte pode ajudar a perceber as mudanças possíveis.
Perspectiva Compartimentada
Perspectiva Globalizada
O enfoque é fragmentado, centrado na transmissão de conteúdos prontos.
O enfoque é globalizador, centrado na resolução de problemas significativos.
O conhecimento é visto como acúmulo de fatos e informações isoladas.
O conhecimento é concebido como instrumento para compreensão do mundo e possível intervenção na realidade.
O professor é tido como único informante, tendo o papel de dar as respostas certas e cobrar sua memorização.
O professor intervém no processo de aprendizagem dos alunos, criando situações problematizadoras, introduzindo novas informações, criando condições para que eles avancem em seus esquemas de compreensão da realidade.
O aluno é visto como sujeito dependente, que recebe passivamente o conteúdo transmitido pelo professor.
O aluno é visto como um sujeito ativo que usa sua experiência e conhecimento para resolver problemas.
O conteúdo a ser estudado determina o problema.
O problema determina o conteúdo a ser estudado.
Há uma seqüenciação rígida dos conteúdos das disciplinas, com pouca flexibilidade no processo de aprendizagem.
A seqüenciação é vista em termos de níveis de abordagem e aprofundamento em relação às possibilidades dos alunos (contato, uso e análise).
Baseia-se fundamentalmente, nos problemas e atividades apresentados nas unidades e livros didáticos.
Baseia-se fundamentalmente, em uma análise global da realidade.
Propõe receitas e modelos prontos, reforçando a repetição e o treino.
Propõe atividades abertas, dando possibilidade de os alunos estabelecerem suas próprias estratégias.
O quadro apresenta duas concepções distintas de educação escolar, mas sabemos que, ao analisar uma realidade concreta, esses dois modelos se mesclam em uma prática pedagógica única, em que os professores se guiam ora por uma concepção, ora por outra.
9- UMA VISÃO DE ESCOLA CRÍTICA
As possibilidades comunicativas e o acesso às informações favorecem a formação de equipes multidisciplinares de professores e alunos, orientadas para a elaboração de projetos que visem à superação de desafios ao conhecimento; equipes preocupadas com a articulação do ensino com a realidade em que os alunos se encontram, procurando a melhor compreensão dos problemas e das situações encontradas nos ambientes em que vivem ou no contexto geral da época em que vivemos.
Para isso o ensino se transforma. Segundo Kenski (2003), preocupados em superar desafios e ir além, alunos e professores buscam informações nos diversos ambientes e meios tecnológicos e as comparam com a realidade em que vivem. Aproveitam os momentos de encontros nos espaços tradicionais das aulas, não mais para receber informações, mas para analisar e discutir os dados coletados visando ir além da informação, domá-las, orientá-las para suas reais necessidades de pesquisa e aprendizagem. Informações não mais compreendidas como verdades absolutas, mas analisadas criticamente como contribuições para a construção coletiva dos conhecimentos que irão auxiliar a diferenciada aprendizagem de cada um.
Cada situação de ensino e aprendizagem é única, e não há “receitas” prontas para a ação docente. Trabalhando com a totalidade do ser humano, além de ensinar conteúdos, o professor tem que interagir com os alunos na perspectiva de ajudá-los a crescer em todos os aspectos, a aprender buscar e avaliar informações e oportunidades de desenvolver seus potenciais, a vencer seus medos e ansiedades, tornando-os pró-ativos, auto-confiantes e seguros de suas potencialidades.
Essas reflexões mostram que o professor, ao mesmo tempo em que desenvolve a ação docente, tem de preocupar-se com todo o contexto em que ela ocorre e, muitas vezes modificar o curso de sua intervenção, para manter o rumo desejado da mediação entre o aluno e o conhecimento.
Pelo que vimos até agora, podemos concluir que há pelo menos três níveis de reflexão: a reflexão na ação e sobre a ação, a reflexão científica e a reflexão filosófica – que reflete sobre a própria reflexão.
10 -NOVAS PERSPECTIVAS DA EDUCAÇÃO
“Há um desassossego no ar. Temos a sensação de estar na orla do tempo, entre um presente quase a terminar e um futuro que ainda não nasceu. O desassossego resulta de uma experiência paradoxal: a vivência simultânea de excessos de determinismos e de indeterminismo. Os primeiros residem na aceleração da rotina. As continuidades acumulam-se, a repetição acelera-se. A vivência da vertigem coexiste com a de bloqueamento. Se a vertigem da aceleração é também uma estagnação vertiginosa. Os excessos do indeterminismo residem na desestabilização das expectativas. A eventualidade de catástrofes pessoais e coletivas parece cada vez mais provável. A ocorrência de rupturas e de descontinuidades na vida e nos projetos de vida é o correlato da experiência de acumulação de riscos inseguráveis. A coexistência desses excessos confere ao nosso tempo um perfil especial, o tempo caótico onde ordem e desordem se misturam em combinações turbulentas. Os dois excessos suscitam polarizações extremas que, parodoxalmente, se tocam. As rupturas e as descontinuidades, de tão freqüentes, tornam-se rotina e a rotina, por sua vez, torna-se catastrófica”. (Boaventura Souza Santos, 2000)
O mundo contemporâneo trouxe uma série de mudanças na vida cotidiana das pessoas, as informações hoje circulam em tal nível de aceleração que se torna impossível pensar em obter-se domínio ou controle dos conhecimentos referentes a um fato qualquer. Mas, nos séculos XVII e XVIII, o conhecimento produzido na ciência levou-nos a crer neste domínio ou controle sobre os fatos descobertos ou anunciados. Neste momento da história enxergava-se um mundo “mutável”, porém com certas restrições, ou seja, as mudanças poderiam acontecer mediante uma regularidade na natureza e na sociedade, confinada a previsões, cálculos e precisões. A previsibilidade fundamentava as transformações. E estas trariam o progresso consigo. Mas o progresso calcado no desenvolvimento e no aperfeiçoamento da técnica e sua manipulação.
O novo paradigma que desenha a ciência contemporânea traz as idéias de incertezas, porque quando o homem se deu conta de que toda a tecnologia produzida com intenção de se trazer benefícios em termos de sobrevivência não foi suficiente. E que ele não foi capaz de cumprir esta função, e muito pelo contrário, lutamos hoje com as questões de falta de água, alimentos, guerras, doenças, ou seja, foi criado um mundo onde os riscos de sobrevivência da própria espécie humana estão ameaçados de extinção. Então, o homem chega à conclusão de que este caminho da visão especializada não foi o que ele esperava. E retorna a pensar sobre o projeto de vida, o seu planejamento de felicidade.
Hoje, vivemos na busca de condições que privilegiam a “melhor forma” do homem existir no mundo. Há um imperativo que ouvimos a todo instante: “estamos em uma crise de valores”. E surgem os questionamentos: Sabe este homem o que quer, e para fazer o que, e para onde vai?
Essas idéias refletem diretamente na educação. Porque é na educação que encontramos a herança cultural, histórica, econômica, política e social do homem, ou seja, a educação como forma de transmitir toda a carga de vida da sociedade humana às futuras gerações, possibilitando as condições de sobrevivência da humanidade.
Diante deste fato, não só foi necessário como se luta hoje para se atribuir à educação a pretensão de que ela seja oferecida a todos em igualdade de condições, ou seja, que todos tenham oportunidade de progredir e desenvolver suas potencialidades – na idéia de igualdade e de sociedade justa. Então, se todos hoje devem receber a melhor educação possível, faz-se necessário e essencial que esta educação/ensino seja constituída do máximo de eficiência e eficácia. Atribuindo-se aos professores e demais profissionais da Educação envolvidos nesse processo a preparação adequada nas instâncias técnicas e pessoais.
As escolas, como instituição responsável pela organização sistematizada do processo educativo em sua essência, agora estão postas frente à necessidade de acompanhar o mundo, tornando sua dinâmica aberta, flexível e atualizada.
... ação material, objetiva, transformadora, que corresponde a interesses sociais e que é considerada do ponto de vista histórico-social, não é apenas reprodução de realidade material, mas sim criação e desenvolvimento incessante da realidade humana. (Vázquez, 1977, p. 213)
No que vimos em relação à aprendizagem percebemos que é um processo e, portanto necessita de uma relação especial para que aconteça. Na relação professor/aluno a consolidação e consumação desse processo é o que mais se deseja. Assim estamos no âmbito relacional da Aprendizagem significativa, na relação dialógica. Tal processo na prática se inicia com a quebra de diversos paradigmas e imaginários coletivos, e só estaremos nesse ponto se tivermos compreendido nossa missão de ser docentes. Seria compreender definitivamente que devemos incondicionalmente, estabelecer relações dialógicas.
Nesse processo temos como obrigação promover a mútua emancipação. Pois, a emancipação será dos dois e não de um, e para isso, temos que romper com qualquer tipo de relação imposta, a priori, pelo imaginário coletivo. Caso contrário:
“O erro que se comete ao dar o passo consiste em esquecer que os significados que os alunos constroem no decurso das atividades escolares não são significados quaisquer e sim correspondem a conteúdos que em sua maior parte são, de fato, criações culturais. Com efeito praticamente todos os conteúdos que a educação escolar tenta veicular – desde os sistemas conceituais e explicativos que configuram as disciplinas acadêmicas tradicionais até os métodos de trabalho, técnicas, habilidades e estratégias cognitivas e, naturalmente, os valores, normas, atitudes, costumes, modos de vida – são formas culturais que tanto os professores como alunos já encontram em boa parte elaborados e definidos antes de iniciar o processo educacional. Aceitar esse fato em todas as suas conseqüências implica abandonar uma perspectiva individualista sobre o desenvolvimento do conhecimento e da compreensão e adotar em seu lugar um ponto de vista psicológico que outorga a prioridade à cultura e à comunicação”. (Salvador, C. 1998)
O professor, na aprendizagem significativa, é o responsável por guiar e mediar o processo de construção do conhecimento do aluno. Com a responsabilidade de sua ação e tirando proveito das expectativas, em torno de sua atuação, o professor deverá deflagrar o processo de questionamento relacional. Discutir com os alunos o contrato didático que estão estabelecendo.
A sala de aula hoje é vista sob uma nova perspectiva, um espaço de aprendizagem por parte de todos que dela participam direta ou indiretamente.
Ser professor é um modo de vida! Isso acontece com o profissional da educação como ocorre em outras profissões que pressupõem um grande envolvimento pessoal e emocional. Aquilo que somos nos fez (e faz cotidianamente!) professores. Por sua vez, a nossa condição de professores nos faz ser a pessoa que somos. Ressignificamos nossa vida cotidiana também em razão de nossa experiência como professores. Como diz o professor Miguel Arroyo (2001, p. 27).
(...) Somos professores. Somos professoras. Somos, não apenas exercemos a função docente. Poucos trabalhos e posições sociais podem usar o verbo ser de maneira tão apropriada. Poucos trabalhos se identificam tanto com a totalidade da vida pessoal. (...) os tempos de escola invadem todos os outros tempos. Levamos para casa as provas e os cadernos, o material didático e a preparação das aulas. Carregamos angústias e sonhos da escola para casa e de casa para a escola. Não damos conta de separar esses tempos porque ser professoras e professores faz parte da nossa vida pessoal. É o outro em nós.
Os princípios e valores que professamos e pelos quais pautamos nossa vidas nos fazem, de uma forma ou de outra, conduzir nossa ação na escola e na sala de aula. Nossa postura pedagógica é, portanto, um retrato daquilo que somos e fizemos na vida cotidiana. A pergunta lançada por Antônio Nóvoa (1995), por é que fazemos e o que fazemos na sala de aula?, tem resposta em nossas próprias convicções, gostos, valores, crenças e experiências. A nossa maneira de ser se entrecruza com nossa maneira de ensinar. Assim pensar o que fazemos e como exercemos nossa profissão significa pensar, primeiramente em quem nós somos. Exercitemos, pois, antes de tudo, a máxima: conhece-te a ti mesmo (Sócrates).
O desafio das carências e dos problemas educacionais, numa sociedade de mudanças tão rápidas quanto a nossa, requer a combinação de esforços e talentos na busca de alternativas de soluções adequadas à realidade que nos cerca.
No sistema de ensino, onde a qualificação do professor e a demanda escolar representam sérios problemas, a Tecnologia Educacional assume uma função importante em termos de apoio pedagógico. Representa, ainda, a possibilidade de otimizar um sistema de ensino através do uso de todo o potencial técnico que a sociedade tecnológica oferece.
Trata-se de um campo envolvido em facilitar a aprendizagem humana através de uma grande quantidade de recursos da aprendizagem e sobre o manejo desses recursos.
terça-feira, 1 de abril de 2008
EDUCAÇÃO
A cada dia nos convencemos mais que a Didática é uma arte. Não se trata aqui de fazer poesia, ou de pensar a Didática de maneira romântica, mas simplesmente refletir sobre a didática em rodas as suas facetas, isto é, em termos de quem a executa a quem se destina, do que ela exige e a que ela se pretende.
Mais do que mera transmissão de conhecimento em sala de aula, exemplificada, na figura do “professor bancário” de Paulo Freire, valoriza-se cada vez mais a necessidade de se construir o conhecimento com o aluno, num processo mútuo de aprendizagem, onde a Didática se apresenta como uma ferramenta pedagógica fundamental. Não apenas como uma ferramenta técnica, mas como uma ferramenta problematizadora atenta a todos os detalhes que interferem na dinâmica ensino-aprendizagem. Hoje, mais do que saber escolher e utilizar os meios adequados para dar aula, o professor que utiliza bem a Didática, é aquele que se preocupa com os elementos que: direta ou indiretamente afetam o jogo ensino x aprendizagem que este, promove dentro ou fora da sala de aula.
E é neste sentido que a arte da Didática se expressa de forma mais palpável. Não basta ser feliz apenas na escolha e execução do método de trabalho, outros fatores como: exercício da criatividade, promoção de um ambiente favorável, planejamento geral, tomada de decisões, motivação da turma, atenção ao tempo, improvisação, são igualmente importantes e não podem ser ignorados do fazer e pensar didático. A arte da Didática resume-se, portanto, na tentativa de combinar esses elementos (buscar uma aula dinâmica, dentro de um clima democrático e motivador unindo a teoria e a prática) com a correria do dia-a-dia, a resistência da instituição – às vezes dos próprios colegas de profissão -, a desmotivação dos alunos, a desqualificação profissional e a desvalorização salarial.
Mas, existe um sentimento muito forte, maior dos que os problemas acima citados, que nos impulsiona a um emprego cada vez mais eficaz da Didática. Talvez essa sensação advenha do sentimento de alteridade que todo professor tem ao contribuir para a vida do outro, em termos de conscientização da realidade, exercício efetivo da cidadania, e possibilidade de construir sua própria história. Que não se emocionou ao sentir que consegui transmitir algum conhecimento em aula e ao perceber esse entendimento a partir das próprias contribuições de sua turma? Como definir esse sentimento, como expressar em palavras esse misto emocional de satisfação consigo mesmo e com o outro, no processo de aprendizagem? Talvez seja mesmo intraduzível, afinal toda a arte tem também os seus mistérios.
Tradicionalmente concebemos as “Metodologias de Ensino” como práticas que se dão em sala de aula. Em outras palavras, sugestões para atividades de aprendizagem na sala de aula.
Entendemos, no entanto, que o processo ensino aprendizagem se dá em diversos âmbitos, e a sala de aula é apenas um destes ambientes, mas não o único. A construção de conhecimento, numa perspectiva contemporânea, se realiza em rede: rede que articula pessoas (dentro e fora do ambiente institucional educativo) e saberes (científicos e não científicos). Nesta perspectiva, ensinar é uma atividade ampla que implica, sobretudo, em mobilizar os modos de conhecer dos educandos, implicando-os na dinâmica de produção de conhecimentos dentro e fora da sala de aula.
Afirma Ramal (2002):
Vivemos numa era em que o conhecimento assume novas configurações. Ele se modifica permanentemente, sendo atualizado dia-a-dia pelas descobertas das ciências e por essa inteligência coletiva que produz saberes em conjunto, na grande rede do ciberespaço. A memória da humanidade já não está confirmada nas bibliotecas, mas sim em contínua reconstrução. Nesse contexto, a capacidade de gerenciar a informação se torna, muitas vezes, a competência mais valiosa.







